Contar uma história é fácil. Em princípio, basta viver um pouco e, depois, se lembrar do que aconteceu. Contar uma grande história, porém, não é tão fácil assim, e a coisa fica ainda mais complicada. Mas e se, além disso, você dançar junto ou ficar com o relato na cabeça o dia todo? Impossível? Quase. Qualquer artista, acredite, fica desnorteado diante de um desafio desses. Pode ser o caso do Superquadra, mas, ao ouvir o novo disco dos brasilienses, “Norte”, não parece: no novo projeto, em que dez canções servem de referência para um ensaio fotográfico com dez imagens, a banda faz parecer que o pop de qualidade é tão fácil de ser feito quanto de ser lembrado.

Os motivos para não esquecer de “Norte” começam antes mesmo de apertar o play: a edição tem primoroso projeto gráfico, abrilhantado pelas fotos que dialogam com as canções. Mas, antes de falar das imagens, vamos ouvi-las? Melhor: vamos nos surpreender? E lugar de surpresa é na pista de dança: o disco abre com “Não fale assim”: um riff grudento, uma batida dançante. Não te surpreendas se aparecer um remix, nem se aparecerem flores vermelhas. A letra sugere saudade e uma coleção de lembranças – da pequena Brasília, da grande paz de outrora que parece perdida. Poderia ser uma colagem poética, mas quem faria uma colagem no meio da pista de dança? O Superquadra, e só.

Finda a balada, você ainda quer beber? Que tal um absinto? Era a bebida preferida de Toulouse-Lautrec, pintor homenageado por um pequeno tratado sobre a crueldade e a dicotomia dos sentimentos, uma grande segunda canção. Misto de flâneur e voyeur, fotógrafo de cantos obscuros e cronista da vida boêmia, Cláudio Bull nos lembra da complexidade das pessoas e de que nem tudo pode ser explicado. E não se preocupe, não há mistérios quanto ao fato de que existem mistérios. Parece legal, mas não é todo mundo que se dá bem com uma tese tão simples. Vampiros, por exemplo. “Lestat”, tributo à criatura de Anne Rice, é um tapa na cara de quem queria ser jovem para sempre e acordou sozinho, confuso e querendo se drogar. O justiceiro solitário narra a vida dos amigos e lhes repete um refrão para ver se aprendem.

Os contos de fada reservam, no final, algum ensinamento. Se a turma de “Lestat” tem chance de aprender, tem gente que vai morrer sem saber. O nome da quarta música, “Judas”, dá uma pista sobre isso. Estivessem os contos brasilienses do Superquadra numa vitrine, seja no Conic ou no Parkshopping, o lugar de destaque teria de ser ocupado por essa música. Na tensão do narrador, uma lição declamada, a se reter na cabeça, como um olhar penetrante. Mas, estará ele falando consigo mesmo ou com alguém? Antagonismo real ou contra a própria imagem refletida? Nunca saberemos.

Há algo de madrugada em “Judas”, e, depois dela, vem a manhã. Recomeçamos, portanto: depois da balada e da lição, surge um dueto doce, suave, com “papapapa” e tudo mais. Não à toa, se chama “Brisa”. Lembra algumas belas canções contemplativas de outra banda local, que colocou o Planalto Central no mapa da música brasileira. Será a velocidade da vida em Brasília que permite essa contemplação? Ou será uma maior intensidade do mundo exterior? Não sei. Se passar na padaria preferida, tome um bom café e pare um pouco de pensar.

Rosto lavado, conta da padaria paga, vá em frente, mas não adianta se adiantar muito: é o que sugere “Frenesi” e sua leve saudação ao alt-country. Já que falamos da velocidade da vida, Cláudio Bull sentencia: “o mundo quer que eu corra só pra me enganar”. E não é só: “as pessoas constroem seu presente no passado ou no futuro, nunca no presente”. Segure seu frenesi: há pardais (radares) nas vias.

A essa altura, as fotografias que acompanham cada canção, a cargo de dez diferentes retratistas, ajudam a entender os relatos do narrador, um correspondente exilado bem perto de você. Corpos nus, pichações, becos, a bagunça orgânica em meio à vida setorizada de Brasília. “1000 ondas elétricas” fala da distância gerada pela tecnologia (ué, mas não era para ela nos aproximar?), de neurose, solidão e dependência – da tecnologia ou de outra pessoa. Em tempos de pessoas catando bichinhos com celulares, Cláudio Bull quer dar uma volta por aí e esquecer da zona de conforto. Pode me levar, estou dentro.

A doce “Estevão X”, com belo piano, é a trilha sonora para levar ou ser levado pelas pistas de Brasília. Mas ela traz algumas duras verdades: a noite não foi bem dormida, há campos minados por aí, sente-se uma ardência em chamas e uma sensação de não relaxar. Mas, olhe pela janela do carro e veja o lado bom disso tudo: ainda estou vivo, e sentir tudo isso é um atestado da própria saúde, meu amor.

Estar vivo é bom, ter tempo e saúde é melhor ainda. Mas não é tudo, como fica claro em “Foi em um dia qualquer de novembro”: misturando country, marcha militar e distorção, é hora de ver além crescer. Ouça a voz da experiência: as redomas de gelo e frieza não te protegem de toda a dor. Fechando o disco, o Superquadra quer bater um papo. Para constatar tudo isso, mas também para fugir da paranoia. É esse o clima de “Vestido azul”, que fecha o disco. Tem a letra mais pesada e aflita de todas. Como naquelas imagens recolhidas ao longo das canções (e que acompanham o encarte), está tudo ali: nossas culpas, negações, desamores, as velhas falhas, vãs angústias, os dias que passamos. E aquela menina que trabalha dois andares abaixo de mim e que, quando foi trabalhar de vestido azul, não me fez pensar em outra coisa. Meus sonhos caberiam ali, se ela quisesse algo comigo, mas ela não quis. Azar o dela: a cidade e a minha vida não param por causa disso.

Entre um passo e outro, alt-country, pop barroco, um pouco de sombras e a vontade de encarar de frente o deserto que se tornou a música brasileira em 2018. Nessa paisagem árida, “Norte” pode ser entendido como a busca intimista por um norte. O Superquadra sabe que não há GPS entregando um rumo certo e seguro e traça seu próprio caminho, certo de que, tão importante quanto chegar, é aproveitar o passeio. Aperte o play e boa viagem!

Fonte: Flora Miguel

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