Tempo entre a colonização e os dias atuais não foram o suficiente para que a sociedade mudasse maus costumes

Na manhã do dia 11 de novembro de 2020, o Jornal da GloboNews – Edição das 10h, apresentou uma conversa com Samela Sateré-Mawé, uma indígena de 24 anos, que teria apoiado um movimento feito pela ativista Greta Thunberg, que aos 16 anos, foi noticiada como líder da Greve das Escolas pelo Clima, e eleita pela Revista TIME como personalidade do ano. Samela concordou com a declaração da jovem sobre o ativismo ambiental e a importância dos povos tradicionais. Em um primeiro momento, podemos até pensar: Cara, Thunberg tem mais de 4 milhões de seguidores em uma única rede social, incluindo várias pessoas que são influentes, então, porque destacarem a reação da Samela?

Bom, o Brasil e o mundo esquece uma coisa que aconteceu lá no ano de 1500 quando Pedro Álvares Cabral por algum erro de navegação se afastou de sua rota em direção a Índia e veio parar na Ilha de Vera Cruz, que atualmente corresponde a parte do Nordeste da costa brasileira. Imagine a situação: um povo que vivia em uma região ainda desconhecida sem nenhum incomodo por gerações, e em uma manhã quando acordam, dão de cara com embarcações e objetos que nunca viram. Apesar disso tudo, a principio aquela seria uma visita que parecia ser amigável, pelo menos para os indígenas, quando a partir da pratica conhecida como “escambo”, faziam trocas com os navegadores, onde ofereciam especiarias típicas da região em troca de objetos como espelhos e outros artefatos. Porém, sabemos que o final dessa história não foi tão feliz assim.

Foto: Pixabay

Após 520 anos, chegamos aos dias atuais, e hoje vemos um quadro totalmente diferente na população. Depois de tantas passagens pela história, como o período da escravidão que durou 300 anos, podemos pensar que  desde a descoberta do Brasil ao fim da escravidão pela Lei Áurea, que “libertou” os escravos depois da assinatura da Princesa Isabel,  ainda está muito recente, tendo em vista que o documento foi assinado em maio de 1888, há 132 anos. O Brasil atualmente é conhecido por sua diversidade, onde há uma mistura de povos, mas é claro que, infelizmente, a harmonia da população fica somente na aparência. Uma parcela dos escravos e indígenas pode ter sobrevivido aos períodos que se passaram, porém a liberdade e a segurança que deveriam ser um direito dado a qualquer ser humano, ainda são parciais. Um dos preconceitos sofridos é o racismo. Alguns exemplos observamos todos os dias como um supermercado de São Paulo que teve de indenizar um cliente após comprar uma mercadoria,  e o mesmo foi acusado de furto. Essa situação se repete milhares de vezes todos os anos.

Matérias envolvendo a frase “negro é chamado de ladrão” quando pesquisada no Google, já exibe mais de 100 resultados nas 10 primeiras páginas. Já “chacinas indígenas” aparecem em 110 resultados, dessa vez em 11 páginas. Um dos destaques apresentado pela Wikipédia é o do Massacre de Haximu, onde em 1993, um grupo de garimpeiros de ouro que trabalhavam no estado de Roraima, matarem mais de dezesseis índios lanomâmis. Em 1997, quatro anos após as mortes, Pedro Emiliano Garcia e outros quatro acusados foram condenados a 20 anos de prisão por genocídio, porém só cumpriu 14 anos.  Por ano se tiram a vida de 65.602 pessoas no Brasil (de acordo com pesquisa do Estado de Minas), e embora alguns ainda sejam condenados, a grande maioria não é punida, enquanto as famílias das vítimas nunca irão superar a perda. Ironia que ao mesmo tempo o país mantém a terceira maior população carcerária no mundo, com cerca de 810 mil presos, sendo que em 2018, cerca de 61,7% dessa população era negra ou parda.

Foto: Pixabay

Em relação aos indígenas, casos onde alguns representantes foram acusados de crimes, acabaram sendo defendidos por antropólogos ou sociólogos. Nessa questão, assim como defendida por Frederico de Deus Bravo Laport em Paraty no ano passado, que apontou o encarceramento de indígenas como uma “medida excepcionalíssima”, levando em conta que a prisão afasta o índio da sua comunidade. Voltamos a pergunta do inicio do artigo: o que faz eles terem essa liberdade sendo que nos casos onde pessoas são presas, elas naturalmente são afastadas de seus meios de convivência? – De acordo com o Terra e o Censo 2010, cerca de 0,4% da população apenas seria de povos indígenas, e devemos considerar que por viverem mais isolados da população e dos centros, os povos mantém a sua cultura interna dentro de sua sociedade. No caso de Paraty, o indigna teria furtado objetos de um posto de saúde, e no final do julgamento que ocorreu quatro meses depois da prisão, Denis Garcia Benite foi solicitado para que devolvesse o que havia roubado, e o resultado foi totalmente pacifico. Existem alguns casos que nos deixam em duvidas, como o ataque feito em março de 2020 à um segurança que estava em um terreno próximo à uma reserva indígena, sendo atingido por um membro da tribo, e logo depois teve o habeas corpus decretado.

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Outro caso que chocou alguns anos atrás foi a morte de John Allen Chau, que considerado um missionário do cristianismo, tentou fazer contato com um povo isolado em uma pequena ilha do Oceano Índico, que é formado por cerca de 200 pessoas que há anos rejeitam qualquer tipo de contato com o mundo exterior, coisa que faz sentido comparado ao episódio do nosso primeiro contato com eles. O norte-americano teria sido morto há dois anos quando tentou contato pela segunda vez. Durante a primeira tentativa, ele foi recebido a flechadas que por sorte atingiram somente sua bíblia. A polícia do local não conseguiu localizar seu corpo e muito menos fazer contato para dar andamento ao caso policial devido á aproximação da região. De acordo com o EL PAÍS, existem cerca de 100 povos que preferem se manter isolados na América do Sul, Nova Guiné, África e em algumas ilhas do Índico, esse fenômeno pode ser explicado pela questão dos antecedentes de nossas relações, além da exploração de suas terras e as doenças que transmitimos facilmente, devido a imunidade baixa por não terem acesso aos sistemas e avanços na saúde. Em relação à questão inicial do nosso artigo, podemos chegar a várias conclusões, mas eu acredito que ainda tenhamos muito que refletir sobre o nosso comportamento como integrantes de uma sociedade que ainda permanece dividida. Meio milênio de convivência ainda não foi o suficiente para nos transformarmos.

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