A pluralidade de sons e ritmos no trabalho do cantor, compositor, arranjador, multi instrumentista e produtor musical Alysson Salvador ecoa na mensagem de seu novo single, “Tudo Massa”. A faixa é capitaneada por um time feminino, reunindo a multiartista trans Vita Pereira e as instrumentistas Débora Costa (percussão e synths), Camila Rocha (baixo) e Cimara Fróes (acordeon). O single já está disponível em todos os principais serviços de streaming.

Este é o sexto lançamento de Alysson nesta nova fase de seu trabalho, denominada “Super Musicarama”, que promove encontros musicais com uma gama de outros artistas. A nova canção tem um papel importante dentro do projeto: o de questionar o status quo do ambiente heteronormativo do forró, dominado também pela narrativa machista. “Tudo Massa” se une a um movimento embrionário na cena do forró que discute sobre tabus, rejeita as narrativas machistas, questiona a configuração de um casal como um homem e uma mulher e valoriza a opção da mulher conduzir o/a parceiro/a de dança.

Lançada recentemente, “Tudo Massa” traz toda a pluralidade e ritmos de seu trabalho como artista musical. Como foi trabalhar nessa nova canção?

Foi um desafio no início, pois eu estava inseguro por estar fora do meu lugar de fala, mas achava importante mostrar mais sobre meu posicionamento sócio-político nesse trabalho. Quando procurei a Vita pra saber o que ela achava da música, ela se empolgou tanto que me deu confiança pra seguir em frente.

Além de sua interpretação, a faixa também foi capitaneada por um time de mulheres, sendo elas Vita Pereira, Débora Costa, Camila Rocha e Cimara Fróes. O que esse trabalho conseguiu agregar na essência da música?

Foi o meu segundo movimento pra dar o respaldo e a importância que essa música deveria ter. Quando a Vita sugeriu colocar as expressões em Pajubá, eu vi que a música já não era mais só minha, e sim uma parceria. Convidei a Vita para cantar comigo e resolvi ser a “cota” e dar protagonismo às mulheres com lugar de fala: Vita uma mulher trans, a Débora Costa que fez o arranjo e a produção musical dessa faixa é sapatão, Cimara e Camila que são bi sexuais. Ou seja, são a representatividade da diversidade de gênero que é cantada na música, além de serem artistas e musicistas de ponta, alto escalão, e sou assumidamente fã delas!

Foto: Mariana Bertelli

Esse lançamento está sendo inclusa em uma nova fase do seu trabalho que foi intitulada “Super Musicarama”. Qual é a definição e as características que estão nessa era?

O disco tem duas fases. Na segunda, que chamei de Super Musicarama, trago convidados pra cantar e tocar comigo, como se fosse uma fase mais avançada da jornada. O nome remete ao conceito dos vídeo games, que sempre gostei desde a minha infância, como Street Fighter, que tem as versões 1, 2, Turbo, Extra, Alfa e Super, por exemplo.

“Tudo Massa” carrega uma missão importante que é a de questionar o status do ambiente heteronormativo do forró conectado pela narrativa machista. Qual é o poder de se passar essa mensagem de conscientização através da música?

Desde que comecei a trabalhar no Teatro de Resistência em 2010 com o querido mestre João das Neves (que nos deixou ano passado), eu me senti na obrigação de falar sobre as minorias e sobre os preconceitos sofridos por elas. Pra mim, a arte tem de ser transformadora e não só uma ferramenta de entretenimento. No meu primeiro disco solo, de 2019, eu falo sobre o racismo na música Maré da Sorte e sobre ganância acima de tudo e todos na faixa Ré-com-Verso. Em Tudo Massa, o papo e o discurso são mais diretos porque falo pra um público específico, onde até mesmo quem sofre com o machismo e a heteronormatividade se incomoda com “o que” e com quem canto nessa faixa! Quando vejo isso, sei que fiz o certo! Rs….

Foto: Flavio Charchar

Infelizmente, esse tipo de preconceito é um dos maiores que tem no mundo durante um longo tempo, juntamente com o racismo. A narrativa da música foi inspirada em acontecimentos reais?

A narrativa da música vem muito da minha observação diária sobre fatos de pessoas próximas a mim. Conheci a Vita fazendo o Espetáculo Madame Satã escrito e dirigido por dois grandes amigos Rodrigo Jerônimo e Marcus Fábio de Faria, que são homossexuais e me ensinam muito sobre a cruel realidade da heteronormatividade na nossa sociedade. Mas o que me fez unir essa narrativa ao forró foi a minha vivência desde que fiz o meu primeiro espetáculo teatral. Como um forrozeiro nato, sempre ia aos forrós pra rever amigos, dançar e ver os shows. Quando convidava os amigxs LGBT, eles nunca aceitavam esse convite pelo ar, olhar e ambiente preconceituoso que o forró exala para essas pessoas!

Uma das grandes contribuições das meninas nessa música foi a introdução da linguagem Pajubá pela Vita Pereira na composição. Para os que ainda não estão familiarizados com essa linguagem, poderia nos contar um pouco mais?

O Pajubá é uma linguagem popular utilizada pela comunidade LGBTQI+. É um dialeto que serve para as pessoas se identificarem entre si e se protegerem dos preconceituosos!

Foto: Anna Lara

A sua história na indústria fonográfica foi iniciada há 20 anos com a exploração das melodias e sonoridades brasileiras. Como foi que começou a sua paixão com a música?

A história é bem longa porque data de antes de eu nascer, pois minha família tem gerações de musicistas. Meu avô materno era maestro, O Maestro Alípio, minha avó paterna era violinista, minha tataravó materna era maestrina, tenho tios músicos e meus irmãos também. Apesar disso, comecei a tocar com 16 anos, bem tarde pra quem tem tanto músico na família. Mas a partir daí, nunca mais parei.