Fábio Ramalho começou sua carreira em televisão na antiga TV Nacional, hoje TV Brasil, como estagiário. Ainda no último semestre da faculdade (e do estágio) foi selecionado para integrar o time de reportagem da TV Brasília, antiga TV Manchete na capital federal. Na época, a contratação não foi possível porque o diploma de jornalista era imprescindível para o exercício da profissão. “Me lembro que já havia negociado inclusive o salário quando me pediram o número de meu registro profissional”. – conta Ramalho. Dois meses depois, quando estava indo para sua colação de grau, recebe uma ligação que mudaria tudo. Álvaro Pereira, então diretor de jornalismo da TV Brasília refaz convite perguntando quando estaria devidamente formado.

Como repórter, Fábio Ramalho logo começou a fazer substituições na bancada de jornais locais da casa. Um ano depois é o titular do programa semanal “Brasília Presente Futuro” na mesma emissora. Mas foi no “Brasília Notícias”, jornal diário produzido na década de 90, que o apresentador se firmou como porta voz da população no que mais gosta de fazer: jornalismo comunitário. Confira a entrevista!

Atualmente nos quadros “#Partiu e “#AchamosNoRio” na RecordTV, além do “Do Meu Brasil”. Qual é a importância do jornalismo cultural para o público?

Eu acredito que a pandemia foi um divisor de águas em relação ao tipo de matéria televisiva que as pessoas “precisam” ver, e o tipo que elas realmente “gostam” de ver. O jornalismo factual, ligado as notícias sérias, é obviamente  necessário. Entretanto, não é tudo o que o telespectador anseia. No período mais intenso de isolamento social começamos a perceber que era pesado falar só de mortes e infecções por causa da COVID 19. O entretenimento cresceu na TV e, sobretudo nas redes sociais. Isso mostra bem a importância que o entretenimento e a cultura tem na televisão.

Com o avanço das ações de marketing relacionadas à tecnologia, você se tornou um dos apresentadores que mais foi rentável fora dos estúdios da Record. Qual é a sua opinião sobre esse avanço da aproximação dos comunicadores com os espectadores pelas redes sociais?

Essa pergunta é muito boa no momento em que muitas pessoas ainda se perguntam se a televisão vai acabar por conta da internet. A resposta pra isso é obviamente que não! Na verdade, a televisão vai se transformar. Muito mais na sua forma de transmissão – com o avanço da internet –  do que necessariamente com o seu formato. Então, interligar as duas coisas, internet representada pelas redes sociais e a televisão tradicional é, sem dúvida nenhuma, uma grande sacada! Muitas empresas começaram a perceber isso. E no meio televisivo não foi diferente.

A própria Record TV Rio apostou em um quadro totalmente gravado com o celular. Isso além de dar uma cara de internet para a televisão, também trouxe anunciantes e patrocinadores ligados justamente a essa área. Em outras palavras, criou-se uma grande interseção entre as duas formas de se comunicar: internet e televisão. Clientes, como operadoras de telefonia celular,  encontraram nesta mistura um prato feito para aumentar as vendas.

Foto: Divulgação

Você começou sua carreira na extinta TV Nacional, atual TV Brasil, e logo após a faculdade passou a integrar a reportagem da TV Brasília. Naquela época a contratação foi impedida devido o diploma ser imprescindível na profissão. Como enxerga as mudanças do mercado em relação ao ingresso dos profissionais no segmento? Qual foi a importância de sua amizade com Álvaro Pereira na época?

O mercado evoluiu e mudou muito. Hoje em dia não é um diploma que estabelece quem é ou não bom profissional no mercado. Na verdade nunca foi assim. A diferença agora é que a entrada no mercado ficou mais democrática. Não sou a favor que pessoas despreparadas estejam na televisão. O meio acadêmico, sem dúvida nenhuma, fomenta  um crescimento e o desenvolvimento do trabalho até mesmo através dos estágios. Mas é inegável que o talento fala mais alto do que “alisar o banco de faculdade” como dizia meu avô. Álvaro Pereira, na época, era o diretor de jornalismo da TV Brasília. E foi ele um grande incentivador do meu trabalho e quem tentou me contratar antes mesmo que eu estivesse formado.

Muito se fala sobre as diferenças das habilidades desenvolvidas na faculdade e a atividade prática nas emissoras. Ter se tornado apresentador titular do semanal “Brasília Presente Futuro” e do “Brasília Notícias” foi essencial para sua adaptação ao formato televisivo?

Eu costumo dizer que estes dois programas jornalísticos foram a minha porta de entrada na televisão. Era impossível trabalhar em Brasília e não estar ligado à economia, a política e tudo que acontecia dentro do Congresso Nacional. Não há a menor dúvida que a faculdade sempre prima muito mais pela teoria. Por mais que hoje as instituições de ensino têm grandes laboratórios, estúdio de televisão, etc, nada se compara a estar de fato no mercado.

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Já alguns anos após sua entrada na televisão, a proposta para o “Fala Brasil” impulsionou seu nome na mídia. Qual foi o aprendizado que pode absorver nessa nova etapa da carreira?

Eu sempre digo que trabalhar em emissoras pequenas ensina o jornalista de televisão a enfrentar qualquer desafio. No meu caso não era uma emissora pequena, mas era uma emissora em franco crescimento. Por isso, na minha época do Fala Brasil, era importante  saber fazer de tudo! Além de gravar reportagens, eu também fazia produção do que eu ia gravar. Eu também ia para a ilha de edição para montar o material; cuidava até de “gerar” – enviar, em bom português – tudo que tinha feito para a “cabeça de rede”, que fica em São Paulo. Isso dá uma experiência totalmente diferente do que teria se fosse entrar na Record TV hoje, por exemplo, uma emissora muito mais estabelecida.

Durante sua caminhada, você passou por diversos setores como a editoria de textos e as gravações de reportagens. Quais as dicas você poderia deixar para aqueles que planejam seguir a profissão após a formação?

A dica número um é não esperar a formação terminar. Hoje, quem pega o canudo no dia da formatura primeiro, para depois pensar em entrar no mercado de trabalho, já está fadado a ter muito mais dificuldades! O aprendizado começa mesmo no estágio. Esta é a principal porta de entrada no mercado televisivo. Caso contrário você fica vivendo aquela situação do “cachorro correndo atrás do próprio rabo”. Se as emissoras não derem oportunidade para as pessoas que estão começando, como elas terão experiência para assumir cargos maiores? O estágio é essa alternativa de início.

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Já foi relatado em sua biografia que uma de suas qualidades é a de ser eclético em relação à dominância dos temas como a política, que é um dos mais áridos para se comentar. Entre as teorias, muitos criticam o mito de que o jornalista tem que saber de tudo que acontece no mundo. Como lidar com essa questão?

As pessoas acreditam que o jornalista precisa saber de tudo que está acontecendo no mundo e ao mesmo tempo ter sempre uma caneta na mão. Brincadeiras a parte, hoje, com a evolução do celular, ninguém anota mais nada no papel! Mas saber um pouco de tudo o que se passa no planeta não deixa de ser uma verdade. O jornalista é um especialista em generalidades. Sabe um pouco de tudo… Mas não necessariamente tudo a fundo. Eu lido com isso deixando claro que ninguém é sumidade em tudo ao mesmo tempo.

Em 2005, a Record passou por uma reforma onde o recrutaram para cobrir o Rio de Janeiro e que tivesse desenvoltura para noticiar os fatos da capital. O desafio era o de encontrar em poucos dias um apresentador que tivesse domínio da região. Comi foi essa seleção?

Eu sou nascido e criado em Brasília e trabalhava já na Record de Brasília há cinco anos. Precisei me adequar à realidade de conhecer o Rio de Janeiro em pouco tempo. Acho que o critério foi muito mais voltado a quem teria jogo de cintura para comunicar o Rio para o carioca, do que necessariamente se o apresentador era natural da cidade maravilhosa ou não. E acho que foi assim que começou a minha empatia com a cidade e, posso dizer também, a relação do carioca comigo. São poucas as pessoas que sabem que eu sou brasiliense, acredita? Talvez pelo meu jeito muito carioca, as pessoas pensem que sou daqui mesmo. O que me faz chegar a conclusão que ser carioca é muito mais um estado de espírito do que necessariamente a “Unidade da Federação” que vem escrita na carteira de identidade. Risos.

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Para finalizamos a entrevista, gostaríamos de saber qual é a sua opinião sobre os novos jornalistas que vêm entrando na profissão e como a comunicação social tem avançado desde sua entrada na televisão?

A comunicação mudou totalmente, e esta mudança não foi apenas no Brasil, foi no mundo todo. Foi uma mudança tecnológica. Hoje o jornalista que não se adapta a falar também para as redes sociais, obviamente vai ter mais dificuldade em ser “ouvido”.  Os olhos não estão voltados mais apenas à tela da televisão. Mesclar as duas coisas é uma transição maravilhosa. Recomendo e acredito que este é o futuro.