O cantor e compositor carioca Victor Mus celebra as coisas boas da vida no novo single e clipe “Cheiro de Pão”. Gravada ao vivo no Circo Voador durante um dos últimos shows do artista em 2020, a música é inédita na sua discografia e convida a brindar momentos de intensa entrega emocional – tal qual sua apresentação em um dos palcos mais tradicionais do país. A canção chega às plataformas de streaming e ganha um vídeo, já disponível no canal oficial do cantor.

Victor Mus foi atração do Circo Voador em janeiro, abrindo o show de Vanessa da Mata. Ele divulgava o EP “Meus Nós”, lançado no final de 2019, e ela trabalhava o repertório do álbum “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”. O convite partiu da própria Vanessa, que descobriu Victor no Spotify, se encantou e decidiu convidá-lo. A artista encontrou um paralelo no trabalho de ambos – entre o verso “passarinho gosta mais de céu que gaiola”, da faixa “Porto Seguro”, com “Passarinhos”, sucesso de da Mata com Emicida.

“Cheiro de Pão” é uma música de letra simples e curta, mas que valoriza as coisas boas e importantes que se esquece no dia-a-dia – um tema constante na obra de Victor. A composição mistura uma veia pop com uma pegada rock e bastante percussão, guiada pelo riff. Pela interação com o público que surgiu a partir das apresentações ao vivo, Mus optou por aguardar a oportunidade perfeita para gravar “Cheiro de Pão” de forma a não deixar de fora a energia desse momento ao vivo. Confira a entrevista!

Explorando uma mistura pouco explorada que foi o MPB com tons roqueiros de referências latinas. Como “Qualquer Chão É Caminho” conseguiu abraçar todos esses estilos combinados?

Olha, na verdade, a gente tem ali aquela pegada de salsa depois do primeiro refrão, mas a referência principal que eu peguei pra fazer a música foi o repente. A entrada desses elementos latinos aconteceu mais na construção do arranjo, quando a gente estava buscando timbres e elementos diferentes, levadas diferentes, pra construir a sonoridade da música.

Foto: João Suprani

O single foi gravado na sua última apresentação no Circo Voador antes do isolamento social desse ano, quando abriu o show para Vanessa da Mata. Esse show chegou a ser marcante?

Foi o show mais marcante da minha vida até aqui. Saber que uma pessoa como a Vanessa ouviu meu som e gostou a ponto de me chamar pra abrir o show dela foi algo que me deixou extremamente inspirado. Não tem nem como pensar outra coisa. Naquele momento confesso que eu fiquei nervoso, claro, até porque também tinha uma carga de estrear no Circo Voador, que sempre foi um palco onde eu assisti muitos shows e sempre quis tocar. Então foi um show extremamente marcante, com uma energia lá no alto.

A faixa recém lançada em sua carreira traz uma amostra de sua versatilidade como artista. Acredita que essa característica eclética possa ser um dos principais elementos da classe cultural?

Eu acho que sim. Eu acho que ser artista já denota implicitamente ser eclético. Porque a pessoa que só ouve uma coisa, só faz uma coisa, só gosta de uma coisa…ela não é artista. Talvez seja só hobby. Na arte mesmo, você entra nos espaços que você consegue. Não tem essa coisa de ser artista só de um ramo, acaba que sempre acontece um intercâmbio entre os diferentes tipos de arte e essa troca é fundamental para o artista. A gente sempre tem que dar um pouco e receber um pouco.

Foto: João Suprani

“Qualquer Chão É Caminho” consegue demonstrar uma tradição do improviso nordestino, sem contar com as rimas interseccionais entre as frases. Como é a sua ligação com essa região tem querida do Brasil?

Eu gosto muito da música nordestina e bebo muito dessa fonte. Minhas duas famílias são de origem nordestina e eu acho que não tem nada mais belo que essa tradição nordestina de rima. Qualquer tipo de arte que o nordestino entra, ele eleva e transforma em outra coisa. Talvez por ser uma região negligenciada por boa parte do restante do país, as pessoas de lá se acostumaram a reinventar, a adaptar e a transformar. E acho que essa é a característica que eu mais admiro e tento levar pra minha carreira.

Outra canção que já foi lançada foi a “Cheiro de Pão”. Conta um pouco sobre essa canção também?

Eu gosto muito de fazer música temática. Tipo, “vou fazer uma música assim, vou fazer uma música assado”. E Cheiro de Pão foi uma música que nasceu de uma vontade que eu tinha de fazer uma música em que eu pudesse replicar cantando o que eu tocava no violão. E aí nasceu ali aquele riff com aquele início da música “quero ver quem sabe mais de amor”. E depois da música criada, ideias malucas de ensaio fizeram a gente criar aquela introdução que eu faço com meu baixista Jonathan Panta, que o público gosta muito. E foi mais ou menos isso. Ela é uma canção rápida, uma canção de curtir, de dançar. É aquela música que a galera para um pouco de prestar atenção no show, presta mais atenção ao seu redor, e dança.

Foto: João Suprani

Esse ano também é especial por marcar os seus 5 anos de carreira que vem se delineando desde 2015. Com uma sonoridade que passeia pelo pop e indie que são unidos pelo MPB, poderia nos contar um pouco mais sobre a definição do sou eu como artista?

Olha, eu acho, na verdade, que se vocês me perguntassem 3 anos atrás, eu conseguiria definir melhor o meu eu artístico do que eu consigo hoje. Porque na verdade são 5 anos de carreira profissional, né? Mas dentro da música eu estou há mais de 15 anos. Então eu acho que eu tentei me definir muito ao longo do tempo, tive muitas certezas, mas hoje, depois de tanto crescimento, tanto aprendizado e amadurecimento, eu consigo me definir menos como artista, no sentido de que eu acho que tenho a capacidade e espaço pra fazer o que eu quiser. Então acho que nesse momento, o Victor Mus é um cantor e compositor. Mas de quê? Eu diria que de música contemporânea, uma música que está acontecendo agora. “Agora” no sentido temporal mesmo. Apesar de seguir uma onda que mistura essa sonoridade que você falou, eu espero no futuro conseguir fazer outras coisas que eu sempre quis, outras ondas que eu quis levar. Então eu acho que quanto mais o artista evolui, mais ele deixa de se definir. Ele passa a ser definido pela sua marca, pela forma que ele faz seu som, mas não exatamente por uma estética ou um gênero.

A apresentação do Circo Voador acabou por se tornar uma das suas únicas apresentações nesse ano devido a pandemia. Já existem planos para recomeçar com força no ano que vem? O que podemos esperar de você?

Em Novembro, eu fiz meu primeiro show presencial durante a pandemia. Foi um bom teste porque foi um evento pequeno, de capacidade limitada. Mas mesmo assim, não me senti muito seguro. E não me sinto seguro de voltar a fazer eventos grandes. Então a gente tá se planejando pra lançar novos singles em 2021 e trabalhar da melhor forma possível, lançando clipes e outros materiais. Esse planejamento do ano que vem é complicado, porque tudo vai depender de como as coisas evoluírem, muitas decisões vão depender do que vai acontecer ao longo do ano que vem. Esse ano, a gente teria feito uma turnê pelo Brasil, por exemplo. E ainda não consigo ter certeza se vamos conseguir fazer ano que vem. É nossa intenção, mas depende muito de como vai estar a situação da pandemia.