Luvie mergulha no sagrado feminino e na sensualidade da mulher em “Por Um Segundo”, primeiro clipe e segundo single de seu EP de estreia, “Blackmoon”. Inspirado pelo conceito da evolução pessoal, o vídeo traduz, em uma estética lisérgica, o rock alternativo, trip hop, dream pop, shoegaze e stoner rock do projeto. A faixa já disponível nas principais plataformas de streaming.

Previsto para abril de 2021, “Blackmoon” trará o frescor de uma artista que traz uma vasta bagagem de influências, sem abrir mão de olhar para o futuro. Com “Por Um Segundo”, Luvie reflete sobre o lado místico e sensual do feminino. Não por acaso, a música estreou bem a tempo do Halloween. Confira a entrevista!

Sendo esse seu último lançamento, “Por Um Segundo” traz para o público um mergulho no sagrado feminino e na sensualidade. Como surgiu o contexto da música?

Os contextos relacionados ao feminino e a tentativa de controlar esse poder estão presentes na jornada de toda mulher, estejam elas conscientes disso ou não. Mas na época que escrevi essa música eu estava passando por um daqueles grandes momentos de mudança na vida. Questionando muitas coisas e ressignificando experiências na busca por me fortalecer no que era sincero pra mim. A sensualidade, assim como a conexão que sempre tive com as ciências ocultas, com a natureza e o poder do feminino estavam cada vez mais tomando seu espaço nas minhas criações.

Essa música é o segundo single de “Blackmoon”, seu álbum de estreia. Como está a expectativa para dar esse primeiro passo com o lançamento do álbum?

“Blackmoon” sai em abril do ano que vem e traz uma vibe bem mística. Cheio de simbologias e mensagens resultantes de processos e descobertas maravilhosas que passei. Comecei a enxergar na música uma forma de potencializar as coisas que eu queria inspirar nas pessoas e no mundo. Então fez muito sentido pra mim explorar os assuntos que mais me inspiram, os questionamentos, filosofias e os mistérios do universo. Então tem muita vulnerabilidade e a música autoral pra mim tem muito dessa jornada de sair da zona de conforto e passar pelos medos, inseguranças e perseverar no que for verdadeiro. Então a expectativa é de realmente colocar esse projeto no mundo e conectar com as pessoas que realmente fazem sentido.

Foto: Divulgação

O videoclipe da canção traz um conceito de evolução pessoal e lisérgica. Foi difícil combinar tudo isso em um único cenário?

A lisergia na verdade tem tudo a ver com os processos de transformação pessoal. Tudo que expande as perspectivas e visões de mundo do ser humano e os faz questionar e ampliar seu entendimento da vida é na verdade contra o loop de desinformação, manipulação e manutenção de bases que vivenciamos.  A liberdade de pensar por si mesmo, de entender seus próprios valores, de não se fechar em padrões repetidos por gerações, representa uma ameaça à manutenção desse sistema que precisa de gerações pessoas sacrificando suas vidas. Dentro desse interesse de conter a expansão da mente humana, as substâncias lisérgicas e os psicodélicos foram combatidos com todas as forças por grandes instituições que dependem dessa mão de obra.

Quer um processo de evolução pessoal mais bonito que um indivíduo começar a questionar seu posicionamento na sociedade, se perceber como igual diante da sua existência no universo e enriquecer suas vivências a partir dessas novas perspectivas?

Substâncias que alteram nosso estado de consciência fazendo novas conexões e permitindo acesso a um outro nível de consciência e presença criando insights que não seriam acessados no loop diário. Então a lisergia entra nesse cenário de uma forma completamente integrada às questões de autoconhecimento, transformação pessoal e espiritualidade.

A chegada da pandemia no ano de 2020 atrasou diversas produções, incluindo as da indústria fonográfica. Esse trabalho também foi afetado?

A pandemia trouxe um questionamento intenso pra mim sobre o que realmente deveria ser prioridade na minha vivência. Quais eram as experiências que eu vim vivenciar nesse mundo? É muito fácil a gente se perder nas tarefas do cotidiano que vão tomando conta de todo nosso tempo e achar que um dia, os nossos sonhos vão acontecer milagrosamente se esperarmos o momento certo. Mas a verdade é que precisamos nos responsabilizar pelos nossos desejos.

Meu projeto autoral não saía do lugar a um bom tempo e durante a pandemia, junto com a ansiedade eu refleti muito sobre a importância de vivenciar esse projeto na minha vida. Foi aí que eu resolvi que, mesmo no meio do caos, mesmo sem tempo e sem as condições ideais, era a hora reorganizar as prioridades e adotar a filosofia “melhor feito que perfeito”. Obviamente tiveram questões que foram dificultadas pela pandemia, mas eu diria que no meu caso, ela foi mais um catalisador que um motivo de atraso para o lançamento das músicas.

“Blackmoon” refletirá a sua vasta bagagem de influências, sem deixar de dar luz ao futuro. Quais foram suas principais influências no meio musical e como foram seus primeiros contatos?

Eu sempre participei de meios artísticos bem variados, tanto nas artes visuais quanto na música. Fiz parte de Coral, fiz teatro musical na época de Londres, dança, artes gráficas e pintura. Minhas experiências nesses diversos ambientes de criação foram primordiais para desmistificar processos e encontrar minha própria identidade na expressão artística.

“Blackmoon” tem as raízes no rock alternativo e vai do trip hop ao dream pop, shoegaze e trilhas sonoras. Acho que as maiores inspirações seriam Portishead, Massive Attack, PJ Harvey, Radiohead, Mazzy Star e Led Zeppelin… eu to curtindo muito trabalhar frequências e sound healing também.

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Infelizmente ainda existe uma grande população machista no mundo. Como a música explora o poder da sensualidade feminina ao longo da formação da sociedade, existiu algum receio de abordar o tema na canção?

É muito comum as pessoas pensarem na sensualidade como algo para o outro. Mas a sensualidade é antes de tudo um relacionamento com o próprio corpo, com as próprias emoções, neuras, travas, autoconfiança, autoconhecimento e liberdade… Todos esses processos e entendimentos geram um empoderamento muito grande. O patriarcado vem institucionalizando e naturalizando formas de reprimir e controlar esse poder para manter a mulher no papel de reprodutora de gerações e gerações de proletariado que o sistema precisa. Então existem interesses em diversas frentes, econômicas, políticas e de gênero por trás de cada atitude que se perpetua na intenção de diminuir, desestimular e conter a expansão da autonomia, das vivências, dos direitos e da liberdade da mulher, assim como de outras minorias.

Então quando se fala da validação da natureza feminina, das emoções, da espiritualidade, do conhecimento dos ciclos, se está trazendo a atualização de questionamentos de papéis em torno da maternidade, do casamento, da família, da vida sexual e outras frentes. Cada mulher que vive esse processo de empoderamento individualmente traz para o coletivo um fortalecimento do movimento por igualdade.

Então não existiu exatamente um receio em abordar o tema. Sabendo a importância disso, seria um erro não usar a arte para expandir essa sabedoria. Sabedoria tal que está longe de ser somente sobre gêneros e minorias, mas sobre a falta de dignidade imposta ao indivíduo, que não tem liberdade para vivenciar sua experiência no planeta pelo fato de nascer escravo dentro de um sistema social que não reconhece a preciosidade da vida.

O clipe teve uma coisa que deve ter surpreendido muitos fãs que foi o figurino usado por você que era uma máscara de corvo. O que a levou a escolher esse animal como representatividade?

O corvo é o guardião dos segredos do universo. Considerado o mensageiro dos deuses, é o animal que transita entre os dois mundos e por isso é muito relacionado à morte e aos ciclos. O famoso poema do Edgar Allan Poe retrata exatamente isso. Esse simbolismo se expande também para representar nossos mundos internos e inspirou diversos filmes, livros, peças, artes visuais, etc.

Nesse papel, o corvo então nos leva às profundezas do nosso ser, onde temos a oportunidade de trabalhar nossas sombras e transformar, por exemplo medos e traumas em empoderamento e liberdade. É uma simbologia bem bonita e mística, que me encantou a ponto de tatuar um corvo no meu braço. Nessa época, eu morava num bairro chamado “Ravenscourt Park” nas terras britânicas e “raven” é a espécie de corvo do Reino Unido. Como boa millennial, vou mencionar que Ravenclaw (Corvinal) é minha casa de Hogwarts, sempre curti a “Ravena” do Teen Titans e o corvo da Malévola. Hahaha Mas apesar de secundário, isso exemplifica que essas simbologias me chamavam atenção desde criança.

A própria coreografia do clipe também foi inspirada nos movimentos do pássaro e representa essa liberdade gerada pelo autoconhecimento e entendimento do mundo. Então eu uso a máscara de corvo para representar esses processos internos de expansão… da transmutação das fraquezas em empoderamento.

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Quais serão seus próximos passos na carreira?

Minhas vivências nesse mundo começaram bem caóticas e não foram nada lineares até o momento. Isso com certeza se reflete na minha carreira e na minha natureza multipotencial. Apesar de ser o primeiro passo no mundo da música autoral, essa expressão artística já me proporcionou explorar meu multi-mundo de talentos e interesses, como a dança, a espiritualidade, as artes visuais, o canto e a composição.

Além de trabalhar no lançamento do EP, tenho me aprofundando em unir ainda mais a música e a expressão corporal como parte dos processos mentais. Com certeza algo ainda mais psicodélico virá depois de “Blackmoon”.