Após se despedir de um relacionamento intenso em “Soltei”, o cantor e compositor Jona Poeta faz em “Beijos sem sabor” um diálogo imaginado com um relacionamento já terminado e reflete sobre seguir em frente neste que é o segundo single de seu EP de estreia. Se a primeira faixa escancarava o desapego, esta transforma em realidade uma conversa imaginada com um ex-amor. A música já está disponível nas principais plataformas de streaming.

Jona dá continuidade à narrativa iniciada com “Soltei”, faixa-título do EP. O trabalho traz um relato pessoal de autoconhecimento e amor próprio após o fim de um relacionamento e tem em “Beijos sem sabor” um capítulo importante: as dúvidas, questões e argumentos que o narrador teria com quem já não está mais na sua vida – o que não impede a faixa de se tornar um diálogo. Essa era uma prioridade para o artista, que também produz conteúdo para suas redes sociais em uma conversa franca com seguidores sobre relacionamentos, desapego e empoderamento.

Recentemente o seu cronograma de lançamentos tem refletido situações que ocorrem em alguns relacionamentos, como em “Soltei” que fala sobre o fim de um relacionamento intenso, e atualmente vemos a chegada de “Beijos sem sabor”, que apresenta um diálogo imaginado com uma relação já terminada. O que mais te inspira nesses assuntos românticos?

Soltei foi um registro de um despertar muito profundo para mim, em 2019 eu decidi enfrentar uma depressão que se escondia atrás do meu sorriso e do feed de uma vida bonita de expor na rede social. Com a psicoterapia me dei conta que eu estive por muito tempo buscando no outro o afeto e o acalanto que faltava de mim por mim mesmo, daí a conclusão que relato na letra “entendi que quem precisa mudar sou eu”. Escrever sempre foi a forma mais fácil de me expressar, então eu fui registrando cada momento desse processo de desapegar de um formato de relação que eu tinha comigo mesmo que não me fazia bem, eu rompi com aquele padrão de comportamento meu de uma forma muito brusca pois eram muitos anos de auto-agressão, então quando percebi o que eu fazia comigo mesmo eu parei imediatamente. Meu namoro da época se estabeleceu sobre aquele Jona que eu tinha sido por muito tempo, quando eu mudei a relação perdeu sentido para mim, apesar de muito amor mútuo, ele não conseguiu me acompanhar na mudança e eu não conseguia mais me colocar naquele lugar secundário (“ir atrás de você, mas não deu”), ele não conseguia encontrar uma forma de se assumir e eu não conseguia mais ser parte de uma relação “ilegítima” e escondida, a lógica era simples, mas a dor de terminar com alguém que chora na sua frente por te amar e temer perder você é uma dor muito intensa, então as músicas do EP passam por essa dor e vivências sobre abandonar um amor romântico ao mesmo tempo que construía em mim o amor-próprio, que não são excludentes, mas nesse recorte do meu momento foram acontecimentos simultâneos. Eu achava que era só eu que sentia aquelas coisas, quando comecei a publicar textos e poesias sobre isso e notei que as pessoas se reconheciam nas minhas palavras eu percebi que a arte era mais que o meu sonho de criança se realizando, era um instrumento de conexão e empoderamento a partir da minha vulnerabilidade e é isso que mais me inspira a continuar.

Foto: Ingrid da Costa

Essa canção já é a segunda que irá compor seu EP de estreia. Como estão as suas expectativas e preparação para esse lançamento? Que mensagem você deseja passar para o seu público com esse conjunto de canções?

A preparação tem sido um desafio imenso e é um processo de aprendizagem incomparável fazer tudo em meio ao isolamento social, mas conectei com pessoas e artistas incríveis que me ajudaram muito a construir esse trabalho e a pensar em como apresentá-lo ao público. Eu sei que o que produzimos tem muita qualidade e traz uma história cheia de verdade em uma mensagem empoderamento, algo que gera muita identificação nas pessoas, então meu coração sonha sem limites com o alcance dessa mensagem, mas minha expectativa é muito pé no chão e se resume em conectar de verdade com mais pessoas, cada vez que recebo um inbox de alguém falando “era exatamente isso que eu precisava ouvir hoje” eu sinto que minhas expectativas foram atendidas.

Foto: Ingrid da Costa

O último lançamento que foi “Beijos sem sabor” nos fala sobre as dúvidas, questões e argumentos que temos sobre as pessoas que já não estão mais em nossas vidas. Essas questões que você cita são baseadas em situações reais que passaram em sua vida, ou apenas construções que fez para o roteiro do álbum?

A letra de Beijos Sem Sabor carrega um peso de muita tristeza pra mim, o primeiro arranjo que fizemos era mais fiel a esse sentimento, mas escolhemos influências que pudessem trazer mais leveza e no fim ela ficou divertida de ouvir, o que me deixou muito feliz, no entanto é uma letra extremamente pessoal e retrata fielmente os questionamentos que eu tinha na cabeça quando cruzava com o meu ex em alguns eventos e viagens, eu terminei também porque ele mostrava se sentir preso no relacionamento comigo e eu no fundo sabia que a prisão verdadeira era a vida de mentiras que ele sustentava por questões familiares e profissionais, mas mais do que isso era por problemas dele com a autoaceitação. A letra inteira quase é uma lista de perguntas que eu teria feito a ele se eu não estivesse tão ocupado de me apaixonar por mim mesmo e me conhecer melhor, não sobrava espaço para eu participar daquele momento dele, deixei essa tarefa para os amigos dele e fiquei aqui do meu lado do mundo imaginando o quanto algumas pessoas deviam estar argumentando sobre ele não me perder, Beijos Sem Sabor é essa projeção misturada com a carta que nunca enviei, mas que cantei agora.

Foto: Ingrid da Costa

Após alguns relatos e convivências, você acabou indo atrás de viver o amor que é considerado o mais importante, o próprio. Você acha que faltava desenvolver isso em seus projetos?

Sim, totalmente Luca. Eu não fazia ideia do que era amor-próprio, eu passei a maior parte da vida com a sensação de que eu não merecia estar nos lugares que estava herança de uma infância repleta de traumas e vivida na escassez de muitas coisas e na pobreza de conhecimento por parte dos adultos que me cercavam, eu cresci me construindo para não ser percebido como uma pessoa LGBTQIA+, porque eu tinha medo de sofrer de novo as agressões físicas e verbais que vivia em casa e na escola quando era uma criança feia e afeminada. Foi assim que me tornei um homem extremamente masculinizado e ausente de pertencimento, pois eu tentei ser uma figura que coubesse naqueles espaços de em um mundo feito por homens héteros brancos para homens heteros brancos, eu mutilei minha essência por medo, covardia ou autoproteção, ainda estou ressignificando meu olhar sobre essas escolhas do Jona criança/adolescente.

Antes de entender o que era amor-próprio eu precisei aceitar que eu não sabia quem eu era, me conhecer e me reconectar com minha essência, esse processo amadureceu e eu o relato em “Meu Couro” faixa que fecha o EP, mas é uma vivência ainda em curso, o amor-próprio é novidade então tem muita coisa que ainda estou descobrindo e compartilhando.

Foto: Ingrid da Costa

A nova faixa traz uma situação bem interessante em seu modelo de história, se tratando de um diálogo que não é respondida. Você acredita que muitas pessoas irão se identificar com essa situação?

Eu acho que sim viu? No arranjo final nós deixamos intencionalmente ela com esse ar de provocação para aquele ex que não deu valor em tempo. Nesses primeiros dias de lançamento, inclusive algumas pessoas já me marcaram no instagram compartilhando trechos da música que são aquela indireta perfeita para o ex como: “E se nada adiantar pra me esquecer? Quantos outros tentará pra me perder?” e “E se quem fugiu fui eu e não você?”

Outro ponto que é levantado tem relação com a revisitação desses relacionamentos com bastante sinceridade e vulnerabilidade. Esses elementos costumam faltar nos namoros atuais? Qual atitude o casal deveria refletir nessas situações?

Acho que esses pontos faltam demais, nosso modelo de relacionamento ideal foi construído com base em contos de fada e novelas que pressupõem por exemplo que o amor verdadeiro implica em “relações eternas”, é um modelo que impõe exclusividade sobre o afeto e os corpos das pessoas com quem nos relacionamos romanticamente para dar outro exemplo. Isso tudo é opressivo de um modo que não há na grande maioria das relações abertura para que as vulnerabilidades sejam expostas e então as pessoas guardam para si e isso acaba tomando uma proporção gigante dentro da pessoa até que ela explode, foge e a outra fica despedaçada sem entender nada. Eu acredito que se essas e várias outras questões fossem compartilhadas com sinceridade o casal poderia encontrar formas de acolher os anseios, medos, dúvidas e desejos um do outro trazendo maturidade e mais força para a relação. Tudo que não tem verdade é frágil, toda vulnerabilidade quando negada também se torna fragilidade.

Nesse EP de estreia, você se juntou a produtora musical Dandara Manoela. Como fazer essa parceria e o que ela incrementou em sua veia artística?

Dandara foi a pessoa que me mostrou que tudo era possível, eu comecei a fazer aula de canto com ela despretensiosamente, em pleno processo de autodescobrimento e vivendo as idas e vindas do final do meu relacionamento, eu tinha muita emoção e sentimentos naquele momento então pingava letras e poesias e ela transborda musicalidade sempre, então toda semana eu trazia para ela uma poesia ou letra nova e de imediato ela começava a tocar e aquilo tomava forma. Quando ela descobriu que cantar era o meu único sonho, ela embarcou nessa jornada comigo com uma entrega extremamente generosa. Dands se desdobrou em mil e trouxe toda a carga de aprendizado dela com a produção do álbum “Retrato Falado” que abrindo um parêntesis aqui, é um trabalho consagrado em vários palcos Brasil afora que vem honrando e fortalecendo a luta das pessoas negras no nosso país e denunciando a situação das mulheres pretas na nossa sociedade. A Dandara e eu aprendemos muita coisa juntos para produzir o EP em pleno isolamento social, eu sou grupo de risco para covid19 então não saí nem para ensaiar com os músicos, sem o aporte dela nada disso sairia tão rápido, tão profissional e tão bonito. Conviver com a Dandara me trouxe a consciência de que cantar pode sim ser um sonho pessoal realizado, mas que a nossa voz e nossa arte são um instrumento de resistência, conexão e revolução, parafraseando a letra dela em Minha Prece: “Minha resistência é voz, e se for preciso eu aprendo a ser feroz”

O que o público pode esperar receber nesse novo projeto?

O EP soltei é uma história com uma timeline bem definida, depois do lançamento de “Soltei” que foi gravada em janeiro, com uma aceitação incrível para um artista desconhecido, veio a pandemia e eu fiquei meses sem lançar nada, quando a ideia era lançar uma música nova por mês, mas o isolamento social não permitiu. Então decidi que “Beijos Sem Sabor” seria o segundo single a ser lançado porque apesar de ser o momento 4 (de 6), eu acredito que quem se conectou com a mensagem de desapego do primeiro single estaria vivendo agora algo mais próximo ao recorte da história que trago em “Beijos Sem Sabor”. Em poucas semanas sairá “Nome Na Lista” que fala de arrependimentos tardios do outro (momento 5) e em sequência ainda nesse ano saem “Te Quero Perto” Momento 2 que fala da vulnerabilidade e da saudade, “Catarse” momento 3 que fala de se reconhecer na dor do outro de uma forma crua e por fim “Meu Couro” que fala do meu encontro comigo mesmo depois dessa jornada, momento 6.