Um dos três rocks da extensa discografia de Chico Buarque, “Jorge Maravilha” é uma bem-humorada canção que se refere a um conflito geracional de fundo político em meio a um período conturbado da nossa história. Agora a faixa ganha uma nova interpretação unindo gerações diferentes através do projeto Duo de Casa, que traz Cacala Carvalho e seu filho Canequinha. A faixa já está disponível para streaming nas principais plataformas de música.

O clássico foi composto em 1973 quando Chico usava o heterônimo Julinho da Adelaide para burlar a censura. Segundo o próprio autor, o verso irônico e icônico “Você não gosta de mim mas sua filha gosta” se baseia numa situação vivida por ele durante o regime militar no país. Em uma declaração nos anos 70, ele contou que quando foi detido e levado ao Dops, no elevador, um agente pediu a ele um autógrafo para sua filha.

A música é um destaque no repertório do Duo de Casa, que apresenta arranjos personalizados para uma seleção eclética representando a trilha sonora da vida da família. A atmosfera é mais que íntima, pois mãe e filho já tocam, compõem e cantam juntos desde a barriga.  Afeto, intimidade e história são as palavras que representam o encantamento deste encontro único, na vida e nos palcos.

Respostas por Cacala:

Recentemente, vocês criaram uma nova adaptação do clássico “Jorge Maravilha” de Chico Buarque, que trata dos conflitos geracionais de fundo político em meio a um período conturbado da história brasileira. Como foi o processo de transformação que foi feito com essa nova versão da música?

O processo veio acontecendo ao longo dos muitos shows que fizemos em duo desde 2017. Esta música já estava no nosso repertório e foi um arranjo feito lá atrás pelo pai do Canequinha, o Fernando Caneca, que foi meu companheiro por 20 anos. Ele desenvolveu o arranjo para violão com base no meu desejo de interpretar Jorge Maravilha numa pegada assim rock/blues bem crua, onde o violão e a voz dessem seu melhor para o som final. Quando eu e canequinha inventamos o Duo de Casa, resolvemos aproveitar o arranjo e ele foi então traduzindo o arranjo do pai para sua pegada pessoal, colocando a sua personalidade própria como violonista e rockeiro na nossa atual versão.

O projeto “Duo de Casa”, uni a paixão pela música que é compartilhado entre mãe e filho, no caso Cacala Carvalho e Canequinha. Com quem essa paixão surgiu e como é a relação de vocês com a música?

Bem, eu sempre fui artista desde pequena! Pedi um violão de presente ao meu pai com 10 anos. Mas eu fui a primeira artista da família. Não tive muito apoio e briguei pra ser o que sou hoje. Para os meus filhos, já foi bem diferente. Pai e mãe músicos. A casa sempre transpirou música. Vivemos por isso e para isso. A música é tudo pra mim e para o pai deles, o que nos salva e nos mantém vivos e ativos. Os meus filhos já foram sendo musicalizados no sonho e na barriga. Embora nunca tivéssemos lhes imposto nenhum caminho, foi muito natural que a música os tivesse escolhido. E eles decidiram aceitar o seu chamado. Isso nos conecta e nos atravessa de um jeito mágico, nos fazendo pares, ainda que sendo representantes de gerações diferentes. Essa diferença que nos atravessa e cria conexões e nos sintoniza pela via da arte é que acaba sendo o grande diferencial que transborda no Duo de Casa.

Uma curiosidade sobre esse clássico é de que sua composição foi feita no ano de 1973 quando o cantor usava o heterônimo Julinho da Adelaide a fim de burlar a censura cultura da época. Vocês conseguiriam nos contar um pouco sobre a história da canção e como chegaram até ela?

Eu sou a mais nova de 3 irmãs. E minhas manas são bem mais velhas que eu e me aplicaram muita MPB dos 70s. Eu sempre ouvi muita MPB e rock brasileiro dessa época. E guardei com paixão a audição desta música. Eu nem tinha noção da história política que estava por trás de grande parte das obras que eu ouvia apaixonadamente. Fui crescendo, entendendo e me reapaixonando por esses grandes compositores que davam nó em pingo d’água para driblar a censura e a ditadura que perseguiam os seus processos criativos.  Então Jorge Maravilha foi uma dessas músicas que ouvi e guardei.

Foto: Roberto Pinheiro

Segundo o próprio autor, o verso irônico “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, teve origem em uma detenção que ao levarem ele para depor no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), acabou sendo abordado por um agente no elevador do seu prédio, onde o agente pediu a ele um autógrafo para sua filha. Vocês acham que essa situação ainda ocorre muito no Brasil? Como “Jorge Maravilha” retrata essa situação?

Sim, a história é que um agente do Dops pediu um autógrafo pro Chico quando ele foi conduzido para depor, porque a filha dele gostava do Chico, essa história é demais! O Chico criou esse heterônimo, Julinho da Adelaide, pra ver se driblava a censura sobre as músicas dele. E deu certo. A censura está aí e de volta com suas novas e disfarçadas formas e garras. Mas o disfarce não funciona não. Estamos sentindo na pele o processo desenfreado de colocar a população contra os artistas e agentes de cultura e educação. Os que estão no poder são ardilosos e sabem que quanto mais as mentes se fecham e ficam obtusas, pelo cerceamento do impacto e da provocação livre das artes, mais eles conseguem caminhar e criar uma situação terrível de desmonte social em troca de mais poder, de dinheiro, criando apenas o agravamento do quadro de desigualdade em que vivemos. Mas sempre tem umas “filhas” infiltradas que gostam de nós e a nossa arte é revolucionária, resiste e insiste.

O repertório do projeto de vocês traz uma seleção bastante eclética que puxa canções que embalaram a trilha sonora da vida da família de vocês. Como vocês foram buscar essas canções e quais são as adaptações que buscam fazer?

Todo o repertório vem das músicas que a gente ama ouvir, das influências que eu e o Fernando Caneca trouxemos para a família, dos Beatles, dos Rolling Stones, do Queen, do Cat Stevens, do Yes, de Phil Collins, do Genesis, de Jethro Tull, de Elton John, da MPB (Tom, Vinicius, Elis, João Gilberto, Gil, Caetano, Chico, etc), do samba, do rock brasileiro de Zé Rodrix, da psicodelia de Tom Zé, dos Secos e Molhados, dos Mutantes e de Rita Lee, entre tantos. Imagina isso tudo conversando com as novidades que Canequinha me traz hoje, da música eletrônica, de novas paixões como Radiohead, Red Hot, e do nosso universo de novas composições que só cresce. Somos parceiros!

Foto: Marina Marins

Para os que estão curiosos a respeito da relação mãe e filho com a música, poderiam nos contar um pouco mais sobre o surgimento do “Duo de Casa”? Sabemos que Cacala Carvalho já compõe e tem sua carreira desde antes de Canequinha nascer, como foi para você como mãe, ter conseguido passar essa arte para seu filho?

Já falei um pouco disso aqui em outra pergunta, mas é muito emocionante ver o Canequinha e o talento dele se expressando. Eu tenho um orgulho danado. Eu não fiz nada além de viver intensa e profundamente a minha paixão pela música, e de buscar ser a melhor mãe pra ele que a música me permitiu ser. A música me deu e me dá tudo que eu sou. E foi só isso… Hoje vejo que não foi “só”, embora seja. Porque ela deu muito a ele e ao irmão dele também, e isso é muito… Ela inventou um DNA que não é o DNA físico/genético… é tipo D(entro de ) N(ós há) A(mor). Amor, um gigante, o primeiro, a força que nos liga a todos, que nos aproxima inexoravelmente e que fala através de nós, que fala no Duo de Casa, através de mim, dele e da nossa história.

Com cerca de 30 anos de vivência no mercado, quais são as principais observações que você consegue apontar entre as três décadas? O Brasil conseguiu progredir de algum meio?

O Brasil? Que Brasil? A arte popular brasileira, sim com certeza. Estamos vivos, criando, inventando, reciclando sons, transformando tudo sempre e de novo, como diz o Moska, “tudo novo de novo”. O artista só tem um apego: apego à mudança. A gente se sente vivo inventando o novo de novo o tempo todo. Dizendo as coisas de outro jeito. Dizendo outras coisas. Esse Brasil cresceu sim nesses 30 anos em que eu faço parte da força de trabalho na arte, especialmente na música.

Foto: Matheus Accorsi

Uma coisa que me chamou atenção, é que vocês também são daqui da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, onde as praia e belezas naturais atraem muito a atenção do mundo. As paisagens também servem de inspiração para suas criações?

Sim e muito. Há pouco tempo lancei uma parceria com Alain Pierre, um single chamado Itacoá, uma homenagem à que eu considero a praia mais linda do mundo: Itacoatiara. Somos muito ligados à natureza. Muita coisa.

Mais recentemente, as canções começaram a se debruçar nas experiências femininas dos amores praianos, translados urbanos e no lirismo das paisagens, definindo-se com o estilo de Bossa Psicodélica. Como funciona essa exploração de temas?

Os temas me vem. Me vem do meu balaio de experiências e sentimentos nessa vida, por referência a mim e aos encontros que tenho com o outro. Nas minhas composições, a experiência feminina é crucial. Não exatamente por uma ótica sexista, mas pelo fato de eu estar habitante de um corpo de mulher e vivenciar hormonalmente nele algumas questões específicas, pelo potencial de engravidar desse corpo (o que me leva a entender nas entranhas que o outro é radicalmente diferente de mim). A psicodelia? Psicodelia é tudo, ela é solta, abraça algum caos, comporta leveza e gritos também, adoro o som das guitarras e a revolta das cores e sons do rock, misturada ao berço confortável que a MPB representa pra mim.

A relação com a música brasileira também ficou explicita com o recente lançamento de “Mestres Meus”, uma ode e homenagem para a obra de Moraes Moreira. Ele serve com uma das inspirações de vocês?

Sim a MPB é um tesouro de mestres nossos. Êxtase máximo é ouvir Gilberto Gil, ouvir Moraes Moreira. Ouvir o Moraes Moreira (homenageado no single Mestres Meus, uma parceria minha com Alexandre Lemos) é saber de qual buraco a gente veio. É um sentido de pertencimento muito forte, que só os gênios de uma cultura nos sabem proporcionar. É sem dúvida uma inspiração e um lugar para se estar. Isso é o que podemos chamar de Brasil.

Respostas por Canequinha:

Comentando um pouco sobre a infância de Canequinha, que ainda criança passou pela Escola de Música Villa-Lobos e o programa de musicalização “O Passo” de Lucas Ciavatta. Quando foi que você percebeu a música se tornaria o guia de sua vida profissional? Já pensou em se ver fazendo outra coisa além de cantar?

A música lá na nossa casa sempre aconteceu de forma muito natural, inclusive na época eu cheguei a pedir para sair da Villa Lobos, eu estava muito entretido com o futebol ainda, mas a musicalidade já estava lá. Acho que o primeiro episódio foi muito cedo, eu era bem pequeno e fomos em um ensaio de bateria de alguma escola de samba que ensaiava na Conde de Bonfim, na Tijuca, minha mãe me levou lá no meio do barulho e eu fiquei fascinado. Lembro-me de flashes, mas minha mãe diz que eu virei e soltei a seguinte frase: “quando eu crescer eu quero fazer isso”. Mas tudo aconteceu de forma natural e pra mim, apesar de ser meu trabalho, ainda é uma brincadeira e tem que ser divertido. Eu comecei a tocar, daqui a pouco a ganhar um dinheiro, tocar com outras pessoas e é assim até hoje.

O contato de Canequinho com o vilão começou a se estreitar a partir das primeiras bandas que foram ManoEla e a Bow Bow Cogumelo. Quais lembranças que guardam dessa época e como a experiência em grupo conseguiu contribuir para o profissional que você é hoje?

Sem dúvidas foram experiências muito valiosas pra mim. Com a Manoela ganhei muito jogo de cintura, pois tocamos muito na noite, e era muito variado. Rock, pop, reggae, samba, tocávamos de tudo. E a Bow Bow sempre foi um laboratório onde eu e meus amigos/companheiros de banda experimentávamos muita coisa, fazíamos músicas, trocávamos composições e pedaços delas. A prática em conjunto é onde a magia acontece de verdade, né? Então cada uma das bandas me ensinou muito, e me ensinaram coisas diferentes.

Resposta de Cacala e Canequinha:

Na opinião de vocês dois, como vai ficar o mercado musical após essa quarentena?

A partir da nossa experiência vai ficar muito aquecido digitalmente. Porque o foco da nossa ação como produtores musicais/artistas se voltou quase que totalmente para a distribuição digital dos nossos trabalhos, principalmente autorais, mas também com algumas regravações. Com este foco prioritário estamos transcendendo fronteiras com a nossa música e nos dedicando a fazê-la chegar a muito mais gente.