Radicado no Brasil há mais de 20 anos, o artista italiano Rohmanelli celebra seus 50 anos de vida cantando sua paixão e suas críticas para a terra que escolheu viver no disco “[Brazil’ejru]”. Pela primeira vez, ele lança um disco inteiramente em português – daí o título inspirado na representação fonética da palavra “brasileiro”.

Cantando da hipocrisia de quem persiste numa vida de ficção  até a alegria fugaz do carnaval, passando por canções inspiradas por grandes nomes de nossa música, o disco mostra todas as facetas e experimentações que o artista fez em toda a sua carreira.

Usar a música como forma de questionar padrões sexuais, amorosos, políticos e religiosos faz parte do discurso forte na sua arte. Reinvenção é palavra-chave no trabalho do artista que começou sua carreira profissional na música em 2014, com a banda Vita Balera. O projeto explorava o rock alternativo com letras em italiano e chegou a lançar um EP homônimo. Antes disso, ele estudou música erudita e canto lírico. Após o fim da banda, focou no seu projeto solo de música eletrônica alternativa ao lado do produtor e músico argentino Jeronimo Gonzalez.

Foi aí que nasceu Rohmanelli, unindo estética, figurino, letra e música. Em 2016, ele lançou sua estreia com o álbum “Anomalous”, um trabalho conceitual que trafegava entre o português, inglês e italiano e que gerou sete videoclipes. Em 2018, Rohmanelli lançou “Fanatismi”, um álbum em italiano e muito mais maduro, reunindo experiências e parcerias adquiridas nos primeiros momentos da carreira. Desde então, suas composições passaram pelas mãos de DJs, produtores e músicos do Brasil, da América do Sul e da Europa.

Seus lançamentos mais recentes são um novo passo nessa sonoridade que une influências do punk, da eletrônica, do rock e do pop. É o que Rohmanelli chama de “transpop”, uma musicalidade sem barreiras de gêneros e idiomas.

Como forma de celebrar seus 50 anos, você lançou o projeto “[Brazil’ejru]” apresenta demonstra sua paixão e críticas em relação ao Brasil, além de ser um disco inteiramente gravado em português. Como foi passar essa primeira experiência?

Sim, comemoro com esse álbum muitas coisas: 50 anos de vida intensamente vivida, 22 anos de Brasil e meu primeiro álbum inteiramente em portiguês. Foi uma experiência necessária, natural, não pensei muito nela, foi surgindo, sobretudo pela dor que me dá ver o Brasil tão maltratado por todos, políticos de todos os partidos e ideologias, todos querem aproveitar desse corpo lindo e disponível que é o Brasil, mas ninguém se preocupa de fato com ele, com seus cidadãos, sobretudo com os mais necessitados… isso me deixa muito triste, pois é um país maravilhoso que me deu muito e que só posso agradecer a cada dia. À medida que as músicas foram surgindo me dei conta que era um retrato da nossa época e do meu amor pelo Brasil e raiva pelos brasileiros que não amam de fato o Brasil. Aí o chamei de [Brazil’ejru] que é a transcrição fonética da palavra brasileiro, para marcar minha identidade de novo brasileiro nela, com meu sotaque, identidades híbridas.

Foto: Bruno Ropelato

Apesar de ser italiano, já faz mais de 20 anos que está radicalizado no Brasil. O que mais o atraiu para o continente brasileiro e quais são as principais diferenças que observa na cultura local em comparação ao povo da Itália? Sente saudade de retornar ao país?

Eu vim para o Brasil por causa dos meus tios italianos que moram na Bahia há mais de 50 anos… queria ir embora da Itália, a província me cansava, desanimava, queria outros horizontes, outras culturas… aí vim para cá para passar um tempo depois da graduação e para estudar a língua portuguesa e fiquei completamente raptado pela energia incrível da Bahia, pela afetividade das pessoas, pelo jeito brasileiro de encontrar o lado bom de tudo, de sorrir até na desgraça, a dignidade, a sensualidade, a literatura brasileira (Amado, Lispector, Drummond, etc)… a música tão rica e contraditória como tudo aqui (Djavan, Ney Matogrosso, Elza Soares, o pagode, o funk… tudo) , a comida: amo acarajé, jaca, jenipapo, tapioca, açaí… Aqui sinto uma verdade e entrega imediata, sobretudo uma capacidade de tentar ser feliz apesar de tudo, todo dia, que na Europa nunca encontrei. Sinto sinceramente pouca saudade da Itália e da Europa, estou muito feliz aqui, quando volto para lá não vejo a hora de voltar para o Brasil, entendi na Europa o que era a saudade. Numa viagem para a Suécia escutei a voz de Jobim de manhã no hotel, chorei, senti o coração se despedaçar, uma vontade súbita de voltar,  aí realizei o que era saudade… amo o Brasil o defenderei sempre.

Foto: Bruno Ropelato

Um dos maiores chamativos do projeto foi na elaboração da capa que conta com as cores do Brasil. Como foi o processo de criação e quais foram os cuidados que tomou em relação ao debate da apropriação política?

A capa teve uma gênese muito curiosa e espontânea. Tinha pensado em muita coisa, mas não queria ser óbvio, aí um dia na quarentena tirei um selfie de lado na frente de um quadro do artista baiano Walber Batinga que tenho na minha sala, presente do meu primo baiano Bruno Visco. Quando vi estava eu lá de perfil completamente encaixado no meio da pintura com uma mão me acariciando saindo do amarelo e do outro lado um azul esverdeado. “Pronto”, falei, “essa vai ser a capa”, minha entrega total ao Brasil que me acolhe e acaricia. Depois surgiu em mim e em alguns colaboradores meus a dúvida da associação dessa capa com o partido politico no poder agora no Brasil. Sinceramente, isso não me preocupou, pois era justamente uma forma de reafirmar que a bandeira brasileira pertence a todo brasileiro e representa eles todos: brancos, negros, indígenas, homens, mulheres, velhos, jovens e estrangeiros que moram no Brasil.

Muitas pessoas quando olham para o nosso país acabam  tendo a beleza ofuscada pelas notícias ruins que vem da nossa sociedade. Qual a sua opinião a respeito dessa visão que as pessoas têm e como você tenta quebrar essa ideia?

Está sinceramente muito difícil aguentar essa destruição diária da beleza natural, da cultura única, da complexidade da sociedade brasileira. Acho que há muitos falsos salvadores da pátria que estão enrolando os brasileiros para se aproveitarem mais uma vez deles, para se enriquecerem mais uma vez às custas do povo… Certamente este é o momento de menor popularidade do Brasil no mundo, só chegam péssimas notícias daqui para fora… Meus amigos e familiares me questionam muito isso lá fora. Eu sou realista, isso tudo me deprime e não compactuo com este Brasil, mas ao mesmo tempo tento celebrar o Brasil que amo, o da miscigenação cultural, religiosa, racial, humana que tanto me fascinou quando cheguei. Eu quero que todos continuem conhecendo esse Brasil e os políticos estão tentando de toda forma nos dizer que não existe que existe somente UM Brasil, essa é uma grande mentira e sacanagem, eu não vou aceitar e acho que os brasileiros também deveriam parar de aceitar qualquer coisa de quem os governa. Se tenho que apontar para talvez o único defeito do brasileiro, é essa certa passividade de achar que as coisas vão como deveriam ir. Não concordo, pois as coisas devem ir como nós achamos que deveriam.

Foto: Bruno Ropelato

Em suas músicas, você costuma questionar os padrões sexuais, amorosos, políticos e religiosos. Como definiria o estilo de suas músicas e qual mensagem busca passar ao seu público?

Eu escrevo e canto o que sinto sempre, tudo o que me incomoda ao meu redor se torna tema de minhas músicas que sempre tem alguma crítica social, no intuito de melhorar o mundo no qual vivemos, além de entreter. Acho que desde criança temos que aceitar padrões e paradigmas inúteis para sermos aceitos em grupos, eu nunca suportei grupo de tipo algum, nunca participei de nenhum, sempre fui muito livre e resolvido em tudo, minha única religião é minha necessidade de ser coerente com o que me proponho sempre. Espero despertar um pouco de anarquia, de busca de uma liberdade verdadeira, plena, fora de esquemas pequeno-burgueses que tornam nossa vida muito previsível, chata e improdutiva.

Sabemos que você iniciou sua trajetória profissional na música em 2014 pela Banda Vita Balera, explorando o rock alternativo com  letras em italiano, chegando a lançar um EP homônimo. Quais são suas melhores lembranças dessa época?

O projeto Vita Balera foi muito importante para mim, pois já tinha desistido do sonho de ser cantor pop-rock e por acaso um mestrando, o Cassiano Fagundes, grande músico, meu puxou de volta para este mundo e de forma profissional… Tocamos em muitos lugares do Brasil em situações muito precárias. Lembro com muito prazer os ensaios na casa do Jerônimo Gonzalez, outro membro da banda e produtor do meu primeiro CD solo, Anomalous. Era muito bom pegar esses clássicos italianos e desconstruir totalmente eles com arranjos inusitados nunca ouvidos. Curti muito, mas também ficou muito complicado conciliar nossas três personalidades e objetivos muito opostos. Após publicar o EP VIta Balera, a banda acabou, mas devo muito a eles.

Foto: Bruno Ropelato

Procurando um pouco mais sobre sua carreira, percebemos que durante sua caminhada, você é muito eclético, pois além do rock, você passou por música eletrônica, punk, pop, além de ter estudado música erudita e canto lírico. Como aconteceram essas transições de estilos, e qual é o seu favorito no momento?

Sempre fui muito eclético, me interesso por tudo, tenho muita curiosidade, não excluo nada a priori, nem na música, então apesar de ter começado com estudos tradicionais na Itália, sempre escutei muita música, do metal, à clássica, pop, eletrônica, etc. Acho isso normal, aprendo de cada gênero algo, cada estilo e banda ou cantor ainda que muito distante de mim me mostra outra perspectiva de performar ou compor, ou cantar, ou de interpretar a realidade. Essa transição do erudito ao pop aconteceu normalmente, pois nem foi uma transição, sempre foi tudo misturado, sempre fiz tudo ao mesmo tempo. Mas hoje o que mais curto como cantor e performer é  o pop-rock eletrônico contaminado por rap e hip hop… foi tão difícil definir meu gênero musical e artístico que cunhei um termo Transpop, ou seja, um gênero que atravessa todos e não abraça nenhum. Eu também sou assim, é minha essência.

No ano de 2016, o público recebeu o lançamento de seu álbum de estreia, o “Anomalous”, um trabalho que foi feito em três idiomas diferentes, sendo eles o português, o inglês e o italiano. Já em 2018, dois anos após o primeiro, chegou “Fanatismi”, que apresentou certo amadurecimento. Como você vê essa evolução de quatro anos para os dias atuais?

Mudei muito artisticamente desde Anomalous, evoluí como cantor, performer e compositor, e isso foi graças a muitas experiências no palco e nos estúdios, ao estudo da técnica vocal, da dança, da performance, e graças a colaboradores como o Ricardo Saugo, meu figurinista e maquiador  e com  meu produtor musical Binho Manenti, que lapidaram minha natureza artística e me entregaram algo mais parecido com o que pretendia ser desde o início. Ainda tem muito para evoluir, mas o duro trabalho diário está dando seus frutos. Esse caminho de evolução artística e humana para mim é mais importante que qualquer sucesso, pequeno ou grande, que seja.

Foto: Bruno Ropelato

Você adotou recentemente o termo “transpop”, uma modalidade que quebra as barreiras de gêneros e idiomas. Como foi para alcançar essa musicalidade?

O Transpop estava na minha cabeça desde o início, mas ainda não tinha conseguido transformar ele em um som meu. A pesquisa dura e diária com o Binho Manenti me levou a isso; começou tudo, do ponto de vista da estética sonora, com a música Macho Discreto, que para mim é o ponto de começo verdadeiro da minha carreira solo. Trabalhamos nela durante três anos quase, testando timbres, a partir do timbre peculiar da minha voz e da minha personalidade fomos construindo um som meu que remete a muita coisa, mas não se parece com nada. Tenho muito orgulho desse resultado que talvez é tão novo e diferente do que se ouve no Brasil, que só penso será entendido daqui a alguns anos.