Atriz, dançarina, cantora e dubladora de carreira, a carioca Luiza Cesar vem se destacando cada vez no mercado artístico nacional, atuando tanto na parte vocal como no mundo das séries e esquetes, como “Leve”, que a consagrou com um prêmio de melhor atriz. Participou de musicais como “Brilha la Luna”, “O Mambembe”, “Estúpido Cupido”, além de ter integrado o elenco da série “The Stripper”, que conquistou milhões de acessos no YouTube, onde por sinal, possui um canal chamado “Viva de Boas”.

Há oito anos no mercado da dublagem, conquistou o posto de professora pela Sociedade Brasileira de Dublagem. Filha da também consagrada Mabel Cezar, Luiza já emprestou sua voz para Gwen Stacy em “Homem-Aranha no Aranhaverso”, Princesa Jasmine em “Wi-Fi Ralph: Quebrando a Internet”, Carmen Aziza/Jade em “Orange Is The New Black”, Michelle em “Chicago P.D.”, Charlotte em “Bella e os Buldogues”, Valerie Brown em “Riverdale”, entre outras produções como “Pretty Little Liars” e “Grey’s Anatomy”. Confira a entrevista!

Considerada uma artista com múltiplos talentos, e formada pela Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna. Poderia nos contar um pouco mais sobre o início de seu contato com o mundo artístico?

Minha mãe com certeza foi o início de tudo! Minha mãe é uma artista incrível e eu acompanhei a trajetória dela desde pequena, tanto indo a estúdios de dublagem a tiracolo como estando nos camarins de peças que ela fazia, eu adorava ver ela em cena e todos os bastidores da arte. Aquilo me encantava! E ter acesso a isso tão nova me gerou uma curiosidade e uma vontade de brincar disso também sabem? Isso que me levou a pedir pra fazer aula de teatro, dublagem e vídeo com 10 anos. Ela me apresentou pra esse universo e meu olho brilhou, e o resto é história.

Um de seus grandes destaques foi com a esquete “Leve”, que a rendeu o prêmio de melhor atriz. Qual foi a importância desse trabalho em sua carreira e como foi participar do projeto?

Esse projeto tem um lugar muito especial no meu coração. Essa cena fez parte da minha montagem de formatura na Martins Penna, só aí já tem muito amor envolvido por ser a minha formação em teatro e por tudo que eu vivi lá dentro. Mas vai, além disso. “Leve” foi a esquete de estreia no mundo dos projetos pessoais, foi a primeira experiência em que eu não estava trabalhando para alguém, eu era uma das idealizadoras do projeto. A equipe era composta só de amigos e alunos ou ex-alunos da Martins, o que deixou tudo ainda mais leve (olha só) e divertido de pesquisar e experiência em sala de ensaio. Foi o pontapé inicial de coragem de se jogar no mundo com um projeto próprio e ver no que dá pelo amor à história que eu estava contando. Eu adoro esse texto, que é da Renata Mizrahi, e acho-o muito potente pra todo mundo, porque fala de infância e de coisas que a gente acha que tem que deixar pra trás quando cresce, e senti que, de alguma forma, o mundo precisava ouvir aquelas palavras. E isso retornou pra mim e pra minha equipe de várias lindas formas, inclusive com prêmios! Foi meu primeiro prêmio como atriz, e isso não vão esquecer nunca; “Leve” é parte de mim e a história da Rebeca é um pouco a minha também.

Foto: Letícia de Morais

Além do teatro e do cinema, você também esteve no elenco da websérie “The Stripper”, que conquistou uma grande legião de fãs. Poderia nos contar um pouco mais sobre seu trabalho na série?

Que delícia que foi viver essa experiência! Na série eu faço a Verônica, uma amiga bem doidinha, livre, confiante e divertida e pra vivê-la de verdade eu tive que descobrir tudo isso em mim, então o processo foi delicioso! Tem bordões dela que as pessoas vêm falar comigo até hoje, tipo “e aí, piranha, vamos sair?” (risos). E é muito incrível poder fazer parte dessa história e levantar a bandeira da diversidade no processo. A Verônica é um dos elos cômicos da série, mas na real a obra trata de visibilidade LGBTQI+, e fico muito feliz mesmo de ter dado tanta repercussão. Agradeço sempre à Natalie Smith, atriz, idealizadora do projeto e uma amiga muito querida por ter me visualizado na Verônica e me convidado para o projeto.

Fora da atuação, temos o seu canal no YouTube que faz bastante sucesso. De onde veio a ideia de começar na plataforma e o que mudou na sua carreira após esse novo canal na internet?

O “Viva de Boas” veio num momento bem importante na minha vida. Eu não estava exatamente num dos meus melhores momentos, passando por dilemas pessoais e emocionais, e me vi precisada de mim mesma, sabe? Eu precisava de algo que me conectasse comigo. E já tinha ouvido de várias pessoas que eu era super solta na internet (eu já brincava muito de stories na época) e que eu podia criar um canal, mas eu não queria criar sem ter o que dizer. E nesse processo pessoal fui entendendo que o deboísmo comunica demais comigo e levando meus próprios dilemas e viagens mentais pra quem mais se sentisse conectada a essa mensagem através do YouTube. E nesse sentido a troca entre eu e o meu público deboísta, que eu chamo carinhosamente de corações badauês (risos), é incrível! É uma via de mão dupla e eu estou sempre aprendendo e recebendo de volta todo amor e carinho. Desde a sua criação em 2018 até aqui, o “Viva de Boas” tem me ajudado a descobrir mais a fundo quem sou eu como pessoa e como artista e como contribuir pro mundo. Sou muito grata.

Foto: Letícia de Morais

Além de ser professora na Sociedade Brasileira de Dublagem, você possui inúmeras dublagens em seu currículo, e uma de suas personagens de destaque é a Gwen Stacy em “Homem-Aranha no Aranhaverso”. Esse personagem já havia sido representado por diversas atrizes como Emma Stone, entre outras versões das histórias do super-herói da Marvel. Como foi seu estudo para assumir o papel?

Foi muito gostoso e desafiador! Eu sempre digo que amo dar vida (e voz) às mulheres fortes, independentes e maravilhosas, e é sempre um desafio trazer com verdade tanta personalidade. Em estúdio foi um tanto quanto desafiador entender que o mistério da Gwen não se tratava de sedução, e sim de confiança, autossuficiência, força, ela confia no próprio taco, sabe? E ao mesmo tempo existe um lado vulnerável que ela não quer aparentar, mas no fundo tem. E fiquei feliz em ver que o resultado imprimiu tudo o que eu e a direção buscamos tanto em estúdio. Tenho muito orgulho de ter a Gwen na minha estrada.

Como atriz, você também produziu por conta própria o curta-metragem autoral “Ela”. Sobre o que ele fala, e quais foram suas inspirações para a criação do projeto?

“Ela” foi um presente na minha vida. Eu estava em quarentena, buscando me conectar mais profundamente comigo do que com qualquer outra coisa, já que o mundo externo estava paralisado numa pandemia que veio no nada! E a pesquisa sobre o feminino, a força de ser mulher e todos os seus mistérios e multiplicidades tava pulsando muito em mim, o que me fez escrever esse texto. Depois, decidi pesquisar audiovisual sem um fim específico, brinquei de luz, expressividade e verdade, pra me experimentar mesmo. Vi na internet um festival online de solos da quarentena, revirei meu baú de pesquisas e fiquei com vontade de juntar essas duas vertentes numa só porque senti que tinham a mesma energia. Foi um projeto todinho feito por mim, e tem um espaço lindo no meu peito por isso. Fez-me ver ainda mais que minha expressividade e minha arte são minhas, e por isso são lindas, é a minha forma de contar história, e “Ela” me deu mais força e confiança pra me apropriar dela.

Foto: Letícia de Morais

Você foi responsável por dar voz a várias atrizes em suas versões brasileiras, e em “Pretty LIttle Liars”, que curiosamente interpretou a personagem da Shidney Park e a  Dre Davis, sendo que a mesma questão aconteceu na série “Bella e os Buldogues” da Nicklodeon, e em “Orange Is The New Black” com as atrizes Laura Ramadei e Rosal Colon. Como foi o desafio de ter duas vozes no mesmo programa? É difícil criar um segundo tom para a mesma dublagem?

É um desafio sem dúvida, ainda mais pensando que todos os personagens de um mesmo produto, de alguma forma, estão passando a mesma mensagem, então existe um mesmo “filtro” para tudo que envolve aquela história, e acho que esse é o maior desafio. Mas o legal das personagens que vivi na mesma série é que elas já traziam uma personalidade forte pra jogo, e isso me impulsiona muito como atriz. Dublar boas atrizes sempre torna nosso trabalho como dubladoras mais desafiador, mas muito mais instigante e interessante!

Outra série que já passou da 16ª temporada é Grey’s Anatomy, onde fez a voz da personagem Hillary List. Como foi dublar a personagem? É fã desses tipos de séries?

Tinha esquecido isso, precisei ir pesquisar (risos). Quando minha mãe dizia que esquecia as coisas que dublava por causa da quantidade, eu dizia “mãe, como você esquece as coisas que fez?” e cá estou eu fazendo igual (risos). Grey’s Anatomy é uma série que eu sou louca pra começar, tenho certeza que a Shonda Rhimes comunica com meu modo de pensar, já consumi literatura dela e sei que vai dar bom, só falta começar. E a personagem que dublei na série é muito divertida! E adoro personagens divertidas porque pra dar profundidade à elas não é só pensar em ser engraçado, na real é tudo menos isso, é acreditar tanto naquela história absurda que as pessoas acham graça. E ela finge que desmaia pra não dizer não a uma proposta de casamento, isso é maravilhoso de dar vida (risos).

Foto: Letícia de Morais

Na faixa adolescente, além de “Bella e os Buldogues”, também tivemos séries como “A Irmã do Meio” da Disney e o grande fenômeno “Riverdale”, onde fez a personagem Valerie Brown. Como é o seu contato com esse público?

Acho muito especial dublar conteúdos infanto-juvenis, porque só a gente sabe como o que a gente consome na adolescência e infância influencia nossos gostos, tem um papel muito importante na formação na nossa consciência e fica guardadinho no coração. Então saber disso me deixa muito grata em poder fazer parte de tudo isso, de poder retribuir o que tanto fizeram por mim, na minha história, podendo ajudar a contar mais histórias e contribuir em várias outras histórias individuais. Pode ficar meio repetitivo o tanto de “história” dessa frase haha, mas é porque sinto que minha missão no mundo tá alicerçada na contação de história, minha e dos outros, como agente transformador que só a arte é capaz. Sou artista e não nego, não dá pra fazer outra coisa dessa vida, amém axé e evoé s2!