Maíra Góes é um dos grandes nomes da dublagem brasileira. Nascida em Juiz de Fora, Mina Gerais, começou a carreira no teatro e, desde 1999,  empresta seu talento e sua voz a personagens marcantes da televisão e do cinema, em sucessos como “Procurando Nemo”, “Procurando Dory”, “Piratas do Caribe”, “O Destino de Júpiter”, “Amizade Colorida”, entre outros.

Sócia-fundadora do Beck Studios, Maíra precisou reestruturar algumas dinâmicas de trabalho para ajustar o estúdio às novas demandas de segurança impostas pela pandemia de Covid-19. A principal delas foi adaptar suas instalações e reorganizar a agenda de colaboradores para que o trabalho pudesse ser feito, temporariamente, em esquema de home studio. Em entrevista exclusiva a Luca Moreira, Maíra revelou detalhes sobre este novo dia a dia e falou sobre os desafios e previsões para o mercado da dublagem no futuro próximo. Confira!

Como tem sido o posicionamento do estúdio em face da quarentena?

Nós pausamos as atividades do Beck Studios no dia 18 de março. Desde então nossa intenção tem sido sempre aguardar a queda da curva de contágio. Os hospitais, que na realidade do Rio de Janeiro sempre estiveram sobrecarregados, hoje estão em um estado caótico, sem leitos, sem material, e esse cenário piora a cada dia. Eu estou sempre de olho nas notícias confiáveis sobre o panorama em todo o mundo, e tenho também alguns parentes médicos trabalhando na linha de frente do combate a essa pandemia. Diante dessas informações, nosso posicionamento é não reabrir o estúdio enquanto a curva não diminuir. O grande problema é, como não estamos fazendo um esquema de isolamento como na Europa, o prazo da nossa quarentena está, logicamente, maior que o dos países mais rigorosos.

Quais foram os principais desafios enfrentados nesse período?

Já em abril nós do Beck Studios começamos a delinear uma estrutura de dublagem remota. Nossa intenção sempre foi preservar o que para nós é mais importante: os profissionais envolvidos no processo de dublagem, que são os técnicos, os diretores e, é claro, os dubladores. Os técnicos de áudio, por sinal, estão de parabéns porque conseguiram antecipar a tecnologia pra esse setor em alguns anos. Não foi fácil chegar a esse novo modelo que nós do Beck, e alguns outros estúdios, conseguimos. O processo ainda é muitíssimo lento porque depende de uma série de recursos como uma boa internet à cabo, já que por Wifi o resultado geralmente fica aquém; um bom espaço de gravação doméstico para o dublador, etc. Eu e o Marcelo (Garcia), meu marido sempre trabalhamos em outros estúdios antes de implementarmos a dublagem no Beck Studios junto com nosso sócio Sérgio Beck, então já tínhamos microfones para gravar pequenos projetos de locução em casa, fazer uma ou outra gravação pequena de dublagem quando é necessário um retake e coisas do tipo. Mas realizar a dublagem profissionalmente exige um aparato mais elaborado, demanda imagem, direção, técnicos. Por isso preservar todos os profissionais dessa cadeia é imprescindível.

Nando Lopes – Dublador (Foto: Divulgação)

Como tem sido gravar remotamente?

Gravar remotamente está muito longe de ser igual ou de ter a mesma qualidade de uma gravação em estúdio profissional. Mas, nesse momento crítico de contágio, consideramos ser o único caminho possível, especialmente porque o ambiente de estúdio demanda contato muito próximo entre os profissionais. É claro que, em um mundo ideal, só retomaríamos as atividades após a descoberta da vacina, mas infelizmente isso não é viável. Já estamos nos preparando para incorporar em nosso dia a dia uma série de medidas de higiene e descontaminação, começando pela mudança de algumas estruturas físicas, como trocar o forro de tecido das bancadas de dublagem por acrílico, por exemplo. Hoje, nessa realidade de trabalho remoto, nossa prioridade é finalizar projetos que já estavam em andamento antes da quarentena. Como a dublagem em estúdio é uma engrenagem de etapas simultâneas e complexas, mas que se desenrolam de forma orgânica porque a estrutura é toda preparada para tal, nosso atual desafio é buscar uma adequação do home studio a fim de agilizar processos. Ontem mesmo fiz a direção remota do Nando Lopes, com operação remota do técnico Matheus Cogli, um processo diferente e novo, mas que estamos conseguindo coordenar e que, a meu ver, tende a melhorar. Espero que os brasileiros entendam que estamos em uma pandemia e observem o que aconteceu no mundo, sigam o exemplo do isolamento e assim possamos baixar a curva e retomar nossas vidas e atividades aos poucos.

Como os clientes e profissionais estão se posicionando diante dessas mudanças? Quais são as principais mudanças técnicas e de logística para novo modelo de trabalho temporário?

Nossos clientes estão muito conscientes do que está acontecendo no mundo e em momento algum fizeram qualquer pressão para que reabríssemos o estúdio. Estão todos muito felizes com a implementação temporária do home studio. Estamos fechando uma série com o GNT e temos recebido bastante apoio de todos os nossos clientes. Os técnicos e equipe do Beck Studios estão dando toda a orientação necessária aos dubladores. Se antes o dublador precisava ter em mente ser um bom ator, dominar a técnica de dublagem, chegar no estúdio, dar o seu melhor e ir embora, nesse momento atípico ele precisa entender um pouco mais da parte de tecnologia. É claro que os técnicos seguem fazendo a operação remotamente, mas, já que os dubladores estão precisando montar pequenos estúdios em casa, é legal que disponham de um conhecimento extra da parte técnica.

Nossos técnicos estão dando toda a orientação para que eles obtenham uma boa qualidade de som, dando dicas como, por exemplo, comprar e instalar espuma acústica, ou então prender um edredom na parede, o que cumpre um pouco essa função. Coisas como colocar um travesseiro atrás do microfone para que o som da janela não reverbere, soluções caseiras desse tipo. Aqui em casa, por exemplo, instalamos tapetes, coisa que nunca tivemos, compramos uma cortina acústica… Enfim, estamos nos adequando mais e já começamos a dublar para outras empresas como a Alcateia e a TV Group. Diante de todo esse esforço, creio que, de algum modo, o modelo remoto nunca mais vai ser totalmente desincorporado, embora pontual. Por exemplo, se um dublador que quebra o pé e fica com a locomoção prejudicada, o home studio, no futuro, pode ser uma boa opção para casos assim. As chuvas de verão constantemente alagam o Rio de Janeiro e impedem o trânsito pela cidade. Essa é outra ocasião em que o home studio pode ajudar a manter os prazos de entrega de produções em andamento.

É lógico que a qualidade do áudio gravado em casa não é a mesma da produzida no estúdio profissional, totalmente preparado, com um investimento alto em estrutura acústica e engenharia de áudio. Mas não podemos deixar de ter em mente que vivemos um momento atípico com essa pandemia, que a prioridade é a proteção das nossas vidas acima de tudo. Precisamos proteger a nossa saúde e a dos demais, sem deixar de cuidar do trabalho dentro do que for possível. Quem consegue se adequar e continuar trabalhando de casa enquanto o cenário não melhora, ótimo. Os dubladores que, por algum ou motivo não conseguem se adaptar, já encontram alguns estúdios abertos. Com a implementação do home studio e a parceria dos profissionais aptos, no entanto, acho que nós do Beck Studios já conseguimos colaborar com a redução desse trânsito de pessoas em ambientes de alto contágio. Volto a ressaltar que não defendemos a transição total para o modelo remoto. O Beck Studios é muito equipado, nossas três salas são lindas, são fruto de um investimento muito alto e, lá, todo o processo da dublagem funciona muito melhor. Estou morrendo de saudade daquela estrutura e do nosso convívio, mas, sem dúvida, o movimento mais sensato nesse momento em que te concedo essa entrevista, é gravar o máximo que pudermos remotamente, pelo bem da saúde de todos.

Matheus Cogli – Técnico (Foto: Divulgação)

Você prevê alguma mudança negativa na dinâmica da dublagem?

A dublagem é um setor que trabalha com tecnologia e toda evolução nesse sentido vem sempre a nosso favor. Ela é uma aliada, não algo a temer. Muitas pessoas nos questionaram se essa expertise do trabalho remoto não estimula os distribuidores, nossos clientes, a prescindir do trabalho do estúdio, mas, respondendo pelo nosso caso, isso não se aplica de forma alguma. Nossos  clientes não tem a menor intenção de exercer essa dinâmica de outro modo senão centralizando todo a produção em estúdios profissionais e com ampla experiência no mercado. Como já disse, a dublagem demanda muitos processos, não se trata de simplesmente contratar um dublador e dizer “olha, temos aqui esse personagem e precisamos do material gravado”. Existe uma mecânica complexa de pré e pós-produção e o que o cliente deseja e espera do estúdio é a entrega de um produto final com toda a qualidade necessária.

O mercado chegou a sofrer algum declínio devido à paralisação de algumas produções estrangeiras?

As produções estrangeiras estão totalmente paralisadas no mundo inteiro. Cinematográficas, de dublagem, todas paradas e isso faz absoluto sentido em face de uma pandemia. A própria Broadway já anunciou que não voltará esse ano. Por enquanto, o que temos para dublar é o que já foi filmado antes do covid-19. Creio que vamos, sim, ver mudanças nesse mercado porque haverá um hiato das produções que estamos acostumados a consumir; Hollywood, BBC, etc, mas temos muitos produtos inéditos que ainda não foram dublados. Os distribuidores e os canais estão buscando de viabilizar justamente isso, tenho notícias de que esses conteúdos já são uma demanda. Prevejo que tenhamos bastante trabalho em breve, mesmo que em idiomas mais exóticos.

Como foi o começo da sua carreira como atriz e na dublagem?

Eu sou mineira, natural de Juiz de Fora, e sempre fiz teatro na minha cidade. Aos dezoito anos vim para o Rio de Janeiro, estudei teatro aqui, fiz várias peças e curso de dublagem, área pela qual me apaixonei e me dediquei bastante. Tempos depois fui contratada pela Herbert Richers e pela VTI Rio e também trabalhava como autônoma em outros estúdios. A dublagem foi ganhando importância e espaço cada vez maiores na minha vida profissional. Quando o ator realmente consegue entrar nesse mercado, quando os diretores querem você em um filme ou série, a gente acaba ficando com pouco tempo para fazer outras produções, a agenda fica bem cheia. Hoje em dia, além de dubladora, também sou diretora de dublagem e coordeno todas as etapas da produção de dublagem do nosso estúdio.

Você é a fundadora do Beck Studios, um dos principais do Rio de Janeiro. De onde veio a ideia de montar seu próprio estúdio e quais foram os principais desafios?

Eu e Sérgio Beck resolvemos implementar em 2010 o curso de dublagem, e em 2011, a audiodescrição e a dublagem.  Sempre quis muito abrir meu próprio estúdio por dois motivos: o primeiro era não ficar sem trabalho, porque a vida do profissional autônomo é incerta. Mas o motivo principal sempre foi ter a oportunidade de realizar a dublagem a meu modo, seguindo um modelo de trabalho que eu acredito ser a forma adequada. Temos muitos estúdios no Brasil que fazem produções com qualidade, alguns nem tanto, e eu queria fazer parte do primeiro grupo. Minha intenção sempre foi produzir uma dublagem cuja qualidade fosse compatível com a importância que ela tem no país.

A fama de melhor dublagem do mundo não pode ser em vão, não podemos perder esse status. Eu queria realmente criar um produto dublado com diferencial e feito com muito cuidado. Apesar de ser uma arte, a dublagem é feita de forma “industrial” em virtude dos prazos sempre muito curtos. Meu desejo é sempre atender bem os clientes, suas necessidades, suas urgências com o aumento da demanda pelo produto dublado depois do advento dos serviços de streaming. Dentro desse processo é muito importante oferecer o máximo de qualidade possível, sem sucatear nenhuma etapa. Isso foi o que mais me motivou, junto com meu sócio Sergio Beck, e depois com o terceiro sócio, Marcelo Garcia, a abrir o próprio negócio.

Um de seus personagens principais foi a peixinha Dory do “Procurando Nemo”. Esse papel te marca até hoje?

Até hoje. A minha carreira na dublagem ficou marcada por antes da Dory e depois da Dory. Eu passei a ter um reconhecimento maior até da minha categoria, e do público então, nem se fala. Sempre gravo mensagens para crianças que gostam da Dory, e o engraçado é que as crianças de ontem já não são mais as crianças de hoje. As crianças de ontem estão apresentando “Procurando Nemo” para as de hoje, seus filhos, no caso. A Dory é a personagem por quem tenho, e sempre terei, um carinho maior. A mensagem que ela passa é muito importante para esse momento difícil que vivemos hoje. Então, feche os olhos agora, e imagina minha voz na carinha daquela peixinha azul otimista cantarolando para você: “Continue a nadar, Continue a nadar…”