Formado em engenharia pela UNICAMP, o alpinista e empresário Rodrigo Raineri alcançou diversas marcas no alpinismo brasileiro desde seus 19 anos. Hoje, aos 50, além de ser o primeiro do Brasil a chegar 3 vezes ao topo do Monte Everest e o primeiro a alcançar o Aconcágua, onde liderou cerca 11 expedições, chegando ao cume seis vezes.

No ano de 2009 decidiu incorporar o parapente e o voo livre em seus projetos, descendo o Mont Blanc, considerada a maior montanha dos Alpes. Durante esse tempo também escreveu o livro biográfico “No Teto do Mundo” com o jornalista Diogo Schelp. Confira a entrevista!

Você é conhecido por ser o primeiro brasileiro a chegar três vezes no topo do monte Everest. Conte-nos um pouco sobre essa jornada? Teve algum tipo de preparação para fazer a escalada?

Sim, eu sou reconhecido como o primeiro brasileiro a chegar 3 ao Monte Everest, mas o meu reconhecimento vem por uma série de outros projetos e por uma trajetória de vida. Para mim, a escalada mais difícil, mais perigosa feita por brasileiros foi a Face Sul do Monte Aconcágua, que eu fiz em 2002 com o Victor. Comecei em dezembro de 2001 e terminei em janeiro de 2002. Participei de vários outros projetos grandes, alguns locais, como aqui no estado de São Paulo, participei de campeonatos brasileiros de escaladas na década de 90, então fiz muita coisa. Desci uma cachoeira na Amazônia, aqui no Brasil, decolei do cume do Mont Blanc de parapente. Fui o primeiro brasileiro a completar trabalhando como guia um projeto intitulado 7Cumes, fiz o Aconcágua também no inverno… então tem uma série de escaladas e outros projetos que realmente colaboraram para o meu reconhecimento, acho que não foi apenas as seis expedições ao Everest (com 3 cumes). Claro que isso é uma marca incrível, mas eu não posso deixar de citar outras que considero tão incríveis ou até mais como a expedição ao Aconcágua no Inverno, e a incrível Face Sul do Aconcágua que nunca nenhum outro brasileiro fez e acredito que não irão fazer tão cedo. A subida dele é uma coisa que tem condições extremas, muito extremas.

Todos os projetos exigem treinamento, mas o treinamento não é só para escalar o Monte Everest, ou só para escalar ou isso ou aquilo. O treinamento é para ter qualidade de vida e para ter saúde. Já tive alguns eventos que só sobrevivi porque tenho saúde, graças a Deus e também por me cuidar. Então, cada projeto tem um treinamento, e eu gosto muito de atividades ao ar livre, mas faço também academia, musculação, trabalho com peso para tentar preservar ligamentos e a parte óssea, a estrutura músculo-esquelética, e faço também os treinamentos técnicos mais específicos das escaladas, enfim.

Foto: Reprodução/Instagram

Como foi o seu começo neste esporte e a partir de quando ele passou a ser considerado sua profissão?

Eu sempre gostei de natureza, morei em um sítio. Na época que estudei em Rio Claro, tinha um professor que nos levava para as cachoeiras ali na região de Cuestas de Botucatu, região de Brotas, Itirapina, Analândia e quando eu estava no colegial fui para as cavernas do Alto Ribeira, as cavernas do Petar, que foi incrível, me mostrou um mundo novo, maravilhoso! Visitei na Gruta do Maquiné também. Quando entrei na faculdade, estava fazendo engenharia da computação na Unicamp, comecei a viajar e fui com um grupo de amigos para o Parque Nacional do Itatiaia e escalei as Agulhas Negras. Me apaixonei pela escalada e acabou se tornando o meu hobbie. Então fui para a Argentina, fiz escalada em gelo, foi para França e Itália na Europa, onde escalei em rocha e o Mont Blanc. Pratiquei escalada em rocha em diversos locais na América do Sul e na Europa. 

A escalada acabou se tornando uma profissão após minha ida para Chamonix, na França, e escalei o Mont Blanc e fui fazer o meu estágio de engenharia de computação na Holanda. Nesta viagem eu vi como estavam os esportes outdoor lá fora e que isso não tinha chegado no Brasil. Em Chamonix tem uma escola de guias de montanha, uma faculdade que você tem que fazer para se tornar guia de montanha, pois lá é uma profissão regulamentada. Depois eu voltei para o Brasil, terminei minha faculdade mas decidi que queria ser guia de montanha, e abri uma empresa com loja de equipamentos, um clube de aventuras, cursos, e também as viagens e expedições. 

Foi em 1993 que eu decidi me tornar profissional, abri a empresa em casa, e em março de 1994 que eu comecei a trabalhar com as portas abertas. Antes de 1993 eu já trabalhava como amador, em casa, dava curso de escalada e vendia equipamentos, porém não tinha a empresa ainda.

Foto: Reprodução/Instagram

Além do Everest, liderou 11 expedições ao Aconcágua, chegando ao cume 6 vezes. A responsabilidade e o cuidado nessas expedições são maiores?

Liderar qualquer expedição requer muito cuidado, é muita responsabilidade! A vida e o sonho das pessoas estão nas nossas mãos. Ser guia é uma coisa muito complicada, porque é o último a dormir e o primeiro a levantar, usa a sua energia para você e também tem que ter energia para cuidar dos outros, tomar decisões para os outros. É uma responsabilidade enorme ser guia de montanha e turismo de aventura. Qualquer expedição é difícil. Como dizemos no curso: a maior parte das quedas a partir de 2 metros, 80% delas é fatal. Passou de 2 metros, você tem que tomar todos os cuidados, é a mesma coisa, a partir do momento que você decidiu sair de casa, tem que estar com todos os cuidados.

Dentre suas aventuras, quais você considera terem sido as mais marcantes? Até onde é o seu limite?

Difícil de responder, pois cada expedição é única, ímpar! Das mais marcantes, a escalada da Face Sul do Aconcágua, como falei anteriormente, é um dos projetos mais ousados que participei, porque é muito técnico, difícil e muito perigoso! É de outro mundo mesmo, rsrs. Só de lembrar já altera o meu batimento cardíaco, minhas mãos suam, foi um projeto incrível. Mas já fiz outros projetos como ele próprio no inverno como falei, e as condições que eu subi, tinha acaba de quebrar minha clavícula, então foi bem difícil. Fiz uma tirolesa de 300 metros de distância e mais de 350 mts de altura na Pedra do Bau, em São Bento do Sapucaí, SP, que foi um trabalho em equipe incrível para esticar corda, montar tudo, e que naquela época foi uma coisa inacreditável de fazer. Em 1994 abri uma via de escalada aqui no estado de São Paulo, em uma parede grande parte inclinada para trás (chamamos de negativo) e que a partir de determinado ponto que se solta a corda embaixo não tem mais como voltar, porque se você tentar fazer o rapel e descer, a corda acaba e você não chega no chão. É uma via muito comprometedora, a única forma de sair é para cima. Tem alguns projetos assim que foram espetaculares. Tem um que praticamente ninguém sabe, que eu fiz treinando para o Aconcágua que foi a super canaleta do Rincon, na Argentina, que foi uma escalada absurda. Outros foram a Cabeça do Condor e a Asa Esquerda do Condor no Condoriri, e a via Francesa no Huayna Potosi, estes três na Bolívia.Vários projetos muito legais!

Montei algumas viagens de pais e filhos: levei meus pais para a caverna do Petar e para a Pedra do Báu, fiz uma viagem para o Monte Roraima com meu filho quando ele era criança ainda, subiu o Vila Rica com 11 anos de idade, escalou o Pão de Açúcar com 9 anos, foi até a base do Everest com 13… Puxa, acho que fizemos muitas coisas bacanas juntos. Quanto ao limite, eu acho que é uma coisa bem difícil de saber, enquanto não testarmos não saberemos nossos limites, e aí é que a coisa fica complicada. A pergunta é “até onde podemos ir com segurança?”. Meu último projeto de descer o Everest voando de parapente, eu não desci pela primeira vez em 2011 porque não tive a oportunidade, cheguei no cume com o paramente, mas a condição climática não estava favorável. Em 2013 peguei um dia perfeito lá no cume e não decolei porque não tinha autorização. Agora em 2019, eu acabei ficando doente, tive que ir embora resgatado de helicóptero de um hotel onde me hospedei bem abaixo do Acampamento Base. É muito difícil sabermos qual é o nosso limite.

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Em 2009, começamos a ver suas atividades no parapente, descendo de o Mont Blanc, considerada a maior montanha dos Alpes. Já existia essa paixão pelo vôo livre?

Eu sempre gostei de olhar a natureza, o horizonte, o nascer do sol, o pôr-do-sol, e olhar de cima das montanhas é praticamente uma vista área, então sim, já existia essa paixão pelas altitudes, pelas paisagens lindas que nos proporcionam. O vôo livre eu vi pela primeira vez em 1993 quando eu foi para Chamonix na França e falei “puxa, um dia vou fazer isso!”. Não existia uma paixão, mas um desejo que estava na minha lista, e a partir do momento que comecei a voar, aí sim essa paixão me pegou, e hoje em dia posso dizer que me dedico muito mais ao vôo livre do que à escalada.

Como foi escrever o livro “No Teto do Mundo” com Diogo Schelp, e a preparação de projeto?

Esse foi mais um daqueles projetos super difíceis. Eu comecei a escrever o livro depois da subida ao Aconcágua em 2002, pois as pessoas me perguntavam como tinha sido e eu queria deixar isso em registro, aí comecei a escrever. Cheguei a mandar para uma amiga o livro praticamente pronto, tive alguns feedbacks que não estava bom, fui mexendo, foi passando o tempo, aconteceu um problema pessoal que me levou a abandonar o projeto. Quando retomei o projeto já tinha realizado outras expedições e eu quis colocar para dentro. Fui escrevendo e acabei desistindo novamente. Depois de 8 anos, eu resolvi procurar ajuda. Eu não queria que alguém escrevesse para mim e não aparecesse (escritor fantasma, ou ghostwriter), eu queria que a pessoa também tivesse os créditos pelo trabalho. Eu já tinha o formato pensado do livro, os capítulos pares seriam uma narrativa cronológica, mas também entrariam histórias que eu puxaria da memória, outras expedições e tudo mais nos capítulos ímpares. Já tinha o início do livro, aquela carta para o meu filho que escrevi antes de ir para o Monte Aconcágua, que era um momento bem marcante da minha vida. A gente não tinha um fecho para o livro, não tinha o final da história, e acabou entrando mais uma expedição em que eu estava lá no Everest, terminando de escrever o livro com o Diogo, e ele foi incrível, um cara sensacional. Fizemos várias reuniões presenciais para começar o projeto, tínhamos os meus manuscritos todos, um monte de entrevistas, matérias de jornais, revistas e internet. Ele já conhecia minha trajetória, então foi um trabalho super agradável e super bacana. Ele conseguiu a editora Leya para publicar o livro. Foi maravilhoso esse trabalho com o Diogo! Em 1 ano nós escrevemos esse livro à 4 mãos.

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Trabalhando na Grade6 como segurança de trabalho em altura, quais são seus próximos planos?

Em 2008 eu tive um problema muito sério com meu sócio na empresa, descobri que ele estava desviando recursos, literalmente estava me roubando. A empresa estava em situação financeira muito ruim, acabamos desfazendo a sociedade, e eu fiquei com o CNPJ, e comecei a reconstrução de tudo. A dívida bancária e de impostos era muito grande, e comecei uma estratégia de reconstrução. Fechei a loja, vendi tudo que tivesse de equipamento para pagar dívidas, parei de fazer viagens de educação ambiental com escolas e foquei nos três segmentos principais, que seriam o trabalho em altura, as viagens internacionais e os eventos corporativos. Criei uma nova empresa com novos sócios e vendi para eles a parte de viagens, se tornando uma empresa independente que hoje é a Grade6. A parte de eventos corporativos continua comigo, que são minhas palestras e treinamentos corporativos que transformei na Raineri Consultoria. Hoje eu não dou mais cursos de trabalho em altura, e sim ministro palestras de segurança no trabalho. A parte de cursos de altura e serviços em altura montei outra empresa e também vendi. Hoje estou com um desafio muito grande aliando duas paixões, que são o turismo e a tecnologia: estou com uma startup de tecnologia onde pretendo transformar a forma de fazer turismo no Brasil e quem sabe no mundo. Ela se chama Destinos Inteligentes, o site dela é: www.destinosinteligentes.tur.br. O meu site pessoal é o www.rodrigoraineri.com.br.