Durante a trajetória agonizante do protagonista do filme “Sócrates”, vivido pelo ator Tales Ordakji, que à primeira vista desenvolve um misto de sentimentos em relação ao recém-chegado no trabalho, acarretando em um embate corporal e amoroso posteriormente. A partir deste encontro ambos vivem com intensidade um período decisivo em suas vidas.

Tales Ordakji interpretando Maicon recebeu diversas críticas internacionais, como The New York Times, LA Times, Roger Ebert e Variety classificando seu desempenho no filme como marcante e excelente, ornando com perfeição a escolha do elenco feita por Moratto, fazendo juz aos prêmios e indicações recebidas.

Tales Ordakji nasceu na cidade de Santos, litoral de São Paulo. Começou a dar os primeiros passos como ator antes mesmo de nascer, quando sua mãe estava gravida, ela cursava teatro em um importante centro cultural da Baixada Santista, a Cadeia Velha. Já na escola, sempre participou das apresentações de final de ano, e em 2006, quando tinha 9 anos, decidiu fazer teatro em sua escola. Porém apenas no Ensino Médio decidiu que seguiria a carreira de ator profissionalmente, matriculando-se assim em 2015 na Escola de Artes Cênicas “Wilson Geraldo” da Prefeitura de Santos, e simultaneamente em Teatro no SENAC Santos, durante sua formação, além de seus cursos de formação, adentrou também no grupo grupo teatral mais antigo da Baixada Santista, o Teatro Experimental de Pesquisas (TEP) que completa este ano 50 anos de atividades continuas.

Como foi o seu começo nas artes cênicas?
É engraçado dizer isso, mas descobri há uns anos atrás, quando decidi realmente seguir a profissão de ator que minha carreira tinha começado muito antes do que eu imaginava, até então pensava que tinha sido no período escolar, quando tinha 9 anos e decidi fazer teatro na escola, mas soube que foi muito antes disso. Quando minha mãe ficou grávida de mim e durante todo o seu período de gestação, ela cursava o último ano de teatro em um importante centro cultural da Baixada Santista, a Cadeia Velha, que até hoje é um lugar que abraça iniciativas culturais e artísticas. Minha mãe se formou e eu nasci, e devido ao meu nascimento e a chegada de outras prioridades, minha mãe decidiu então se afastar do teatro e focou seu lado artístico mais no artesanato, já que ela sempre amou trabalhos manuais. Hoje ela fica toda orgulhosa dizendo que foi ela que transmitiu a paixão pelas artes cênicas durante a gestação, porque enquanto ela decorava os diversos textos, elaborava cenas, participava de apresentações, eu estava ali, sempre presente com ela.
Foto: Dada Cardoso
Estreando o filme Sócrates, como está sendo dar vida ao personagem Maicon?
Tá sendo bem interessante saber como o personagem está chegando para o público. A arte é incrível, ela é muito maior e muito além de seu criador, isso independente de quem seja, não dá para associar a vida de um artista a sua obra, porque não necessariamente elas se convergem, pois ela gerada cria sua própria ótica e seu próprio pensamento ante cada espectador.  Com o sucesso de Sócrates já recebi diversas mensagens do Brasil e de várias partes do mundo comentando sobre o personagem, pessoas que criam diversas teorias, chegam as mais variadas conclusões do que levou ele ser do jeito que é, e sempre uma opinião é diferente do outra, cada vez que escuto alguém dizer sobre esse personagem acabo me fascinando e descobrindo ainda mais sobre ele. O Maicon, segundo a minha visão, retrata grande parte de uma sociedade que nega suas vocações e paixões por apontamentos e críticas vindas de outros. Ele é uma pessoa com uma vida triste e que provavelmente nunca será verdadeiramente realizada, um ser que se esconde em uma ilusão.
 
Durante o projeto, você pode contracenar com o ator Christian Malheiros, conhecido pela série “Sintonia” na Netflix. Como está sendo trabalharem juntos?
O Chris é um grande amigo, trabalhar com ele foi fantástico. Antes do filme nós já nos conhecíamos, cursamos a mesma escola de artes cênicas em Santos em 2015. Desde a fase dos testes até as gravações nos ajudamos bastante em relação de como fazer o trabalho, afinal de contas era o nosso primeiro longa-metragem, tudo muito novo pra nós, viemos do teatro, estávamos no meio da nossa formação, migrar da linguagem teatral para a cinematográfica foi algo bem inesperado naquele tempo e que nos pegou de surpresa, mas devido aos diversos comentários positivos tenho certeza que conseguimos dar conta. E tenho certeza que esse filme não só marcou nossa vida por ser nosso primeiro filme juntos, mas agregou de forma muito significativa para nossa formação como ator.
Foto: Dada Cardoso
Você recebeu diversas críticas de veículos internacionais pela sua atuação. Qual a importância que esse projeto está tendo na sua carreira?
Tudo isso que tá rolando é incrível! Quando começamos a rodar o filme não tive ideia da projeção que ele tomaria, o filme foi feito com poucos recursos financeiros, porém realizado com muita garra e determinação. Todos os envolvidos tinham consciência da importância de contar uma história como a de Sócrates, principalmente em tempos em que grande parte das pessoas dão soluções simples para problemas que são complexos. O impacto que o filme tá causando na minha carreira é enorme, estrear no cinema com um trabalho que foi reconhecido mundialmente e que dialoga fortemente com o público realmente abre portas de diversos lados, grandes cineastas e pessoas do meio que tenho extrema admiração me mandaram mensagem falando sobre minha interpretação e de como o filme os impactou. Fazer Sócrates é um orgulho, não só por estar no projeto mas também por dizer o que precisa ser dito.
Para interpretar seu personagem, encarou mais de 500 atores no processo de seleção. Conte-nos um pouco sobre como foi o seu processo de preparação.
Na época estava no segundo ano de artes cênicas e no último ano de formação em teatro pelo SENAC Santos, cursava as duas escolas simultaneamente a tarde e a noite, minha sede de aprender era e ainda é inesgotável. A principio eu não iria fazer o teste para o filme, nos dois anos anteriores que ele foi rodado fiz testes para dois curtas-metragens do Instituto Querô, o instituto sempre faz curtas de final de ano de suas turmas, e nos dois anos consecutivos eu cheguei a finalista dos testes, porém sempre eu recebia um não. Quando em 2016 foi anunciado o testes para o longa-metragem eu não fui da primeira vez, estava muito atarefado com os estudos e também já tinha um sentimento que “se eu não passei nos dois anos anteriores, porque passaria agora?”, então deixei pra lá, se passou uma semana e divulgaram uma segunda chamada para os testes, vi e falei pra mim mesmo: “Porque não? O não eu já tenho, e se rolar serei capaz de conciliar com os estudos”. A partir daí fui fazendo os testes sem nenhuma pretensão em passar, porém sempre dando o meu melhor. Ao total fiz sete testes até chegar a resolução final que eu viveria o Maicon no longa. Foram por volta de 2 ou 3 semanas de preparação de elenco antes do longa ser rodado, e para viver esse personagem tive que deixar meus julgamentos pessoais de lado para compreender a maneira de agir e pensar do personagem, porque só assim conseguiria representar este ser humano cheio de complexos e questões.
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Uma obra de arte, seja ela em qual segmento for, sempre será maior do que seu criador, ela tem seu pensamento próprio, pensamento este que se cria na mente da cada espectador. Nem sempre o pensamento da obra compactua com o pensamento de seu criador, e vice-versa. Essa é uma das belezas de fazer e apreciar arte.