Lucy Alves fala do impacto do The Voice em sua carreira

Nascida na cidade de João Pessoa, Lucy Alves é uma das grandes representantes da música erudita no Brasil. Teve seu primeiro contato musical ainda criança quando tocava violão ao com sua família. Integrou diversas orquestras importantes na Paraíba, teve seu próprio solo na Orquestra Sinfônica da Paraíba e do Recife. Estudou musical com ênfase em violino no Conservatório Musical da UFPB.

Considerada uma artista multifacetada e que se adapta a diversos ritmos e experiências, ela também possui habilidade em violão, viola, bandolim, contrabaixo, pandeiro, cavaquinho e piano. Passou 11 anos no grupo Clã Brasil, formado por seus irmãs e seus pais, rodando diversos ligares do mundo, lançando seis CDs e dois DVDs.

Em 2013 foi finalista do grupo de Carlinhos Brown no reality “The Voice Brasil” da Rede Globo, que três anos depois, retornaria a emissora dessa vez como atriz da terceira fase de “Velho Chico”, onde interpretou Luzia Rosa dos Anjos, seguindo para a “Tempo de Amar”, onde fez a Eunice.

Como foi o seu começo no meio artístico?

Comecei muito jovem porque a minha família sempre teve muitos músicos, cresci em um ambiente que a música era algo muito recorrente. Misturávamos brinquedos, instrumentos…então sempre fomos muito incentivados.

Quando a gente começou, meus pais me incentivaram, colocaram para estudar música, participei de orquestra na Paraíba. A música realmente fez parte da minha formação de um jeito muito direto. A gente fez um grupo em família, onde eu realmente passei a transitar no meio artístico, conhecer outros artistas, tocar e andar pelos palcos. Então tudo começou de uma forma familiar e ainda muito jovem.

Quando era pequena, ingressou no projeto musical “Formiguinhas”, além de ter sido violinista na Orquestra Infantil da Paraíba. Guarda lembranças da época?

O projeto Formiguinhas, foi um projeto muito especial na minha vida. Comandado pela Norma, uma mulher da qual eu tenho uma lembrança muito viva na minha cabeça, muito forte que infelizmente faleceu. Eu a considerava minha mãe musical, porque com ela me deu muitas coisas, disciplina em ambiente de orquestra, se comportar entre os nipes, o violino, como está ali em um grande grupo.

Era uma mulher que tinha conhecimento, sabedoria e um pulso muito firme, foi uma das minhas primeiras grandes referências de mulher depois da minha mãe, porque eu convivi muito tempo com ela e aprendi muito. Ela foi realmente parte da minha formação musical, aprendi a ler partitura e tive meu primeiro contato com instrumento.

Dona Norma era essa figura implacável, muito firme, brava que só ela, e cobrava bastante. Era muito disciplinada e gostava que as pessoas fossem disciplinadas também. Então tenho uma memória muito bacana porque junto da orquestra e de Dona Norma, eu viajei, eu aprendi. Chegamos a ir para Disney juntas, imagina um grupo cheio de crianças, todo mundo tocando e se divertindo. Então tenho ótimas lembranças da construção mesmo, é muito importante, o alicerce, o chão dessa casa que continua sendo construída.

Graduada em música pela Universidade Federal da Paraíba, qual a importância dos estudos na sua carreira?

Estudar é muito bom! Me intitulo de aprendiz sempre e me orgulho muito de ter essa vontade de aprender, isso me move a querer mudar, a pesquisar e ter uma cede de conhecimento que é infinita.

A graduação foi muito importante para mim no aspecto de arranjadora e compositora. Pude praticar, e conhecer a música erudita aqui na Paraíba, e é interessante poder mergulhar, viver esse outro ambiente da música erudita, que eu termino trazendo para o meu trabalho, para a música popular.

A erudita é um outro tipo de música, de sala de concerto, de ambiente sinfônico, e quem fazia isso com maestria era Sivuca, que foi um outro grande sanfoneiro de Itabaiana, uma cidade da Paraíba. Sivuca tocava nas feiras e depois ficou mundialmente conhecido como um grande sanfoneiro, que tocava em grandes salas de concerto, tinha arranjos para orquestra, arranjos sinfônicos incríveis, morou nos Estados Unidos, na Europa e foi um cara muito respeitado. Tive a oportunidade de conhecer ele, ele conhecia meu grupo, conhecia o Clã Brasil, e era uma grande referência universal de musico para mim.

Conte-nos um pouco de sua experiência com o grupo nordestino “Clã Brasil”?

Brasil é meu xodó, minha paixão, e me deu régua e compasso para cantar nos palcos. Minha primeira experiência como líder de um grupo, lembro quando pequena e parada lá na frente, morrendo de vergonha e de encarrar aquela plateia, porque eu já me apresentava ao lado de orquestras, mais liderar um grupo e ser a porta-voz, como eu era foi muito desafiador e eu aprendi muito ali.

No início combinávamos tudo, como ia me portar no palco, me direcionar, e como iria falar. Meu pai sempre foi meu guru, tinha uma sorte tremenda de poder ter minha família no palco comigo. Viajamos muito pelo Brasil, 11 anos de história e parece que foi uma outra vida de tanta informação, de tantos lugares que fomos, para Alemanha, Estônia, Portugal, e andamos boa parte do país.

Conhecemos muitos músicos, tive oportunidade de me apresentar constantemente, e isso foi me enriquecendo. Fui ganhando corpo como instrumentista e como interprete, o que mais tarde me ajudaria muito na história da atriz, porque eu sempre fiquei no palco, e a gente em algum momento atua também. Então o Clã Brasil, eu considero o meu grande estrelo assim realmente, um grupo que pesquisava bastante a música nordestina, fazíamos muitos mergulhos, nos reuníamos para escutar música, cantar e tocar. Muita sorte minha ter o Clã Brasil como escola.

Como foi participar do reality “The Voice Brasil”?

O The Voice Brasil foi realmente eu divisor de águas na minha carreira. Eu considero porque depois de 11 anos com o Clã Brasil, eu tive a oportunidade de me apresentar em rede nacional, toda semana eu estava na casa das pessoas, entrava com a sanfona e com meu trabalho, as pessoas puderam me conhecer, e aquilo me projetou para o mundo de uma forma mais abrangente, em uma escala muito maior e foi importante ter um trabalho que eu já tinha seguindo, já era para poder mostrar com verdade para as pessoas, com segurança, para poder ir avançando, e também foi muito importante ter um apoio bacana, pessoas que me cercavam no término do programa, que é a parte mais difícil, a gente consegui seguir porque isso é uma superexposição maravilhosa, mais você tem que tá preparado para quando isso acaba, para poder dar seguimento. Sou muito grata ao programa, um programa lindo, muito bem cuidado, produzido, e todos que estão envolvidos ali, os produtores musicais, nossa, o queridíssimo Carlinhos Brown, que sempre foi a minha primeira escolha, por ser um artista tão plural, tão completo, instrumentista, ótimo compositor, dança, canta, achava aqui fascinante, Carlinhos foi meu coach. Todo muito ali muito carinhoso, Daniel era técnico, Lulu, a Claudinha e o Carlinhos, e Carlinhos e Lulu viraram pra mim, e o Lulu também era minha segunda opção (risos), e eles viraram, então foi um momento muito, muito emocionante, eu considero a prova mais dicil, a prova de fogo na minha carreira, e eu não sei se conseguiria passar novamente por aquilo, principalmente na audição ás cegas, onde você é testado, as cadeiras estão viradas, você se cobra muito e espera muito o aval daquelas pessoas. É difícil para o artista, mais até hoje as pessoas me lembram do The Voice, até hoje sou associada de forma muito carinhosa na vida delas, e a sanfona também que me trouxe todo aquele universo lindo e encantado do Nordeste, ficou muito marcado na memória das pessoas, então é impossível não lembrar com muito carinho desse programa. Obrigada The Voice!

Se lançando em carreira solo após assinar com a Universal Music, sente vontade de se unir a uma outra banda futuramente?

Logo depois do The Voice, eu me lancei em carreira solo, assinei com a Universal, e logo em seguida assinei com a Warner Music, minhas primeiras gravadoras, e hoje ainda eu sou artista da Warner, e estou seguindo com minha carreira solo, tem alguns trabalhos que estão para serem lançados, coisas inéditas, inclusive meu novo álbum, e eu tenho minha banda que já me acompanha, então minha pretensão é seguir na carreira solo com esse grupo que já está lá me ladeando.

Como definiria o seu estilo musical e quais são suas influências na música?

Sou uma artista muito plural, venho de uma escola nordestina muito forte, então eu canto um pouco de  forró, xote de maracatu, e tudo isso de uma forma muito peculiar, com batidas muito diferenciadas, tudo isso mesclado com o que ando escutando por ai no mundo inteiro, tenho tantas influencias, considero uma música pop brasileira, sou uma instrumentista, compositora, cantora, tenho uma cara muito única, tenho um DNA muito único, então desde Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Alcione, Madonna, Michael Jackson, Daft Punk, Rihanna, Beyonce, Alicia Keys, Lady Gaga, Richard Bona.. Tantas influencias que eu termino carregando comigo. Às vezes é difícil se colocar em uma prateleira, porque eu sou uma artista muito facetada, muito plural, mais me considero uma artista pop brasileira.

Lançado pela banda, o disco “De Onde Vem o Baião” teve a música título composta por Gilberto Gil ainda nos anos 80. Como foi dar voz a composição de um cantor tão consagrado pela história fonográfica brasileira?

Eu sou muito fã do Gilberto Gil, justamente porque ele é um artista camaleão, conseguiu gravar de tudo na vida dele de uma forma muito única, já cantou reggae, forró, de tudo um pouco, e faz com premissa e de uma forma muito genuína. Então sempre amei o Gil, e começou tocando sanfona também (risos), ele tem essa história se cruzando com a minha, então ele sempre foi muito referência, e aí o Clã Brasil gravou a música, e ele gentilmente autorizou, é uma música lindíssima, a Gal já gravou, então foi uma honra, porque é aquilo que eu falei, me considero muito sortuda porque pude encontra essas pessoas muito jovens, e eles sempre acreditam no talento e no trabalho. O Clã Brasil ainda é lembrado com muito respeito, então é muito importante para artistas como eu, ter esse apoio e esse reconhecimento desde jovem, algo que te impulsiona para ir muito mais longe.

Antes de participar do The Voice, havia trabalhado com Alceu Valença em alguns shows pelo Brasil, além de eventos como o “Festival Internacional da Sanfona”. Ainda fazem projetos juntos?

Alceu Valença é outro grande nome, grande referência nordestina que conseguiu ser pop também, trouxe aquela veia do maluco beleza, da eletricidade do rock nordestino. Ele e Zé Ramalho tem musicais lindas, são canções que ficaram enraizadas em nosso imaginário, clássicos como “Morena Tropicada” e “La Belle de Hour”, é um cara genial que tem uma cabeça fervendo a mil por hora, é muito inteligente, e eu tive a oportunidade de tocar na banda dele durante 2 anos, um cara que sempre foi muito gentil comigo e com minha família, é um gênio, a gente depois não conseguiu se encontra, por causa dos projetos de cada um, mais sempre nos falamos.

No ano de 2014, se apresentou em um grande evento organizado pela cidade de João Pessoa, contando com mais de 80 mil espectadores. Como foi ser homenageada por esse show?

João Pessoa é minha terra querida, eu amo a minha Paraíba, sou paraibana, aquela arretada com orgulho demais da tarde. João Pessoa é uma cidade linda com muitos amigos e familiares, tenho muita saudade sempre e amo voltar lá, as pessoas sempre me abraçaram e sempre reconheceram o meu trabalho, quando passei pelo The Voice foi uma comoção geral, as pessoas se envolveram, parecia que era parente direto, as pessoas votaram em peso então eu tive oportunidade de fazer alguns shows importantes lá. 2014 a gente vai coroa o The Vocie depois eu volto lá em 2016 e faço um lindo show de réveillon para mais de 300 mil pessoas, então é o meu chão, é a minha terra, aquele lugar que quando eu estou no avião e pouso, o meu corpo inteiro relaxo, do dedão do pé até o último fio de cabelo da minha cabeça, que eu sei que ali é realmente o meu berço, e é muito importante. Sou uma menina que cresceu entre o sertão e o litoral, tomando banho de mar em João Pessoa, correndo no chão de Itaporanga, cidade dos meus pais, sertãozão da Paraíba, vendo os fogos, bandeira de São João, forró, na poeira, as novenas, a família reunida, a chuvinha que vinha, as mesas fartas, cheias de comida, principalmente comida de milho.

Como foi ser coroada a Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 2016?

Eu consigo chegar no Rio de Janeiro, por causa do trabalho em novela que eu fiz, o “Velho Chico” que foi muito importante para minha carreira como atriz, meu primeiro trabalho na novela, e ainda eu conheci Zé Katimba, um outro paraibano que chegou ainda muito menino no Rio de Janeiro, e se criou por ser tão guerreiro, perdeu a família muito jovem, passou por todas as alas da escola, foi puxador de corda, até ser compositor, um dos fundadores mesmo da escola. Ele me acolheu, me levou na quadra, e terminei como puxadora da Imperatriz Leopoldinense, na avenida de salto e sorriso no rosto, uma mulher puxando samba com sanfona, lembro até hoje o comentário do Pretinho da Serrinha: “meu deus olha esse fraseado que ela está fazendo, parece um violão de sete cordas”. Obviamente influência do meu pai, que era violonista de sete cordas, mais foi assim um momento de paz na minha vida, um momento muito especial, vê aquela avenida cheia cantando, sorrindo, gritando, botando tanta emoção para fora, e a gente cantando, um país tão lindo, o tema muito bonito. Nesse ano a gente homenageou a história de Zezé de Camargo e Luciano, que são duas pessoas que vem do interior do Brasil, desse Brasil profundo, dessa raiz que se cruza em muitas coisas com a minha raiz. Foi muito legal, por isso que eu falo que sou muito eclética, meu deus “Lucy na avenida”, estava lá.

Além de cantora, também esteve atuando em novelas como “Velho Chico” e mais recentemente em “Tempo de Amar”. Qual a influência da dramaturgia na sua vida e como foi o começo de sua experiência na televisão?

O meu lado atriz começou nos palcos sem eu nem saber, e recebi um convite para um teste para “Dois Irmãos”, uma minissérie de Luiz Fernando que eu fiz, mais não fui chamada, e mais tarde ele me chamou para “Velho Chico”, uma novela que me marcou profundamente, contando a história do povo nordestino, eu pude representar muito as mulheres nordestinas, e a dramaturgia chegou de uma forma muito bonita na minha vida e só fez acrescentar, porque muito me enriquece nos palcos e nos meus trabalhos, minha própria experiência de vida mesmo, muita gente bacana que conheci e aprendi muito na escola da Luiz Fernando, uma escola muito completa, não é para atores, é para artistas, então no casting dele tem cantores, circenses, pessoas que são criativas e que ele apoia, e eu adoro isso. Foi uma experiência muito transformadora e muito forte. Logo em seguida eu fiz “Tempo de Amar”, minha primeira novela de época, que também foi muito especial. É legal porque de elenco para elenco, de direção para direção, a gente aprende bastante. A dramaturgia veio para minha vida, e eu quero conciliar a carreira de atriz e cantora de mãos dadas para o meu futuro.

Deixe uma mensagem.

Eu sempre continuarei me surpreendendo muito com a vida, porque ela é muito generosa comigo, eu faço o que eu gosto e eu emano isso, sou muito feliz por ter pessoas muito bacanas ao meu lado, a minha família que é a coisa mais importante da minha vida. Posso chegar no Rio de Janeiro e ter uma equipe linda ao meu redor, porque sozinho a gente não chega a lugar nenhum, e a gente atrai energias parecidas com as nossas, então eu sou muito agradecida ao Pedro Loureiro e ao Juliano Almeida, que são meus empresários e junto comigo a gente está construindo mais uma história muito bonita, eu tenho a dizer que 2019 vai ser um ano bombação, a gente já está correndo, tem CD para lançar, programa de TV, possivelmente outra novela, e é isso, quero produzir, cantar até velinha porque eu amo fazer isso. Nasci para isso, nasci para a arte, eu nasci para representar o meu povo nordestino por onde quer que eu ande, onde quer que eu vá, não tem como, está na minha cara, na minha pele, no meu jeito de falar, e isso me faz ser Lucy Alves, a menina da sanfona, do violino, da guitarra, do baixo, a menina das novelas, a menina do Brasil, do mundo!

Eu quero tudo e a gente pode (risos). Obrigado pelo carrinho que vocês me acolherem, foram muito especiais. A gente volta renovado para mandar brasa nesse ano que está só começando, estamos em fevereiro e parece que já é junho. Desejo muita paz acima de tudo e muita sabedoria a todos nós, principalmente aos governantes desse país que representam a gente, então eles podem mudar a vida de muitas pessoas, ou até mesmo torna-las mais infelizes se não souberem cuidar do povo brasileiro, porque a gente tem muita coisa bonita para mostrar e para contar, tem muita arte e a gente quer viver feliz e acolhido.

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